segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais um Outono: A Estação da Alma


Certa vez Carlos Drummond de Andrade "conversou" com uma amendoeira na manhã do primeiro dia de outono: "(...) Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza." Em "Fala, Amendoeira", 1957.
Nesta manhã eu não conversei com uma amendoeira  - e estou a milhares de anos-luz da capacidade de escrita do Drummond, seja ao descrever o início da estação ou sobre qualquer outro tema - mas foi uma das poucas vezes que senti de maneira forte a chegada do outono.
Segundo informações meteorológicas ele iniciaria às 07:29 h. Não sei como eles conseguem esse grau de precisão, mas acreditemos no fato.
Por volta das 07:20 h entrei no automóvel e percorri um caminho já rotineiro, por entre ruas arborizadas, um trecho de beira-mar e outro à beira-rio, depois de uma ponte.
Chovia levemente, depois das fortes águas da noite anterior e a temperatura se mantinha amena, como foi no final de semana.
Repentinamente a chuva diminuiu e o sol abriu. Não olhei as horas, mas desconfio que era por volta de 07:29.
Muitas nuvens no céu não impediam o atravessar dos raios, a vegetação molhada compunha o quadro ideal para aquele tipo de luminosidade que não ofusca. Parei o carro e tirei umas fotos com o celular. Acho que Drummond não faria isso.
Se o outono é mais estação da alma que da natureza, talvez eu tenha percebido essa beleza momentânea mais com os olhos da emoção.
Certa vez Gabriel Garcia Marquez disse que, dos livros que havia escrito, o que mais gostava era "O Outono do Patriarca". Acho belo esse título e me faz lembrar que "outono" é também usado para designar uma estação da vida: o da maturidade.
Estando eu "outonal", é possível que tenha exagerado ao reparar na beleza do dia. A alma pode ter falado mais alto. Mas são momentos como esses que nos fazem parar a correria e lembrarmos que estamos vivos, aqui, conectados com a natureza, pois somos parte dela.
E que tudo um dia termina, ao final do outono de cada um, independente de ser Drummond, Garcia Marquez ou um cronista desconhecido de um blog esquecido num canto da Internet.
Vivamos pois cada estação, conversando com amendoeiras, olhando o céu de vez em quando, colocando-nos no lugar do outro.
Quem sabe assim as cores de abril (mês outonal, conforme cantou Vinícius e Toquinho) venham povoar com mais frequência os tempos cinzentos que tem habitado muitas estações.
Para quem ficou curioso sobre o final da conversa de Drummond com a amendoeira (sobre sua idade outonal), segue o último diálogo:

"-Não me entristeças" (falou Drummond)

"- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."


domingo, 12 de março de 2017

Dos livros de bolso de Estefania às leituras de verão

Estefânia é um bonito nome feminino, raro. Já Estefanía é um sobrenome espanhol. Com certeza poucos leitores conhecerão alguém assim batizado. Eu já, por causa do Marcial Lafuente Estafanía. Ficaram na mesma?
Pouco dinheiro na mão costuma ser a tônica dominante de ávidos leitores adolescentes dos subúrbios. Era o meu caso, lá pelos anos 70. Mas havia uma escapatória: os estabelecimentos que vendiam livros usados, conhecidos como "sebos". Sobretudo livros usados que já eram baratos quando novos, nas bancas de jornal. Era o caso dos "livros de bolso" (Pulp Fiction) de faroeste. Esses tinham um mestre: o escritor madrilenho citado acima, que publicava como M.L. Estefania. Escreveu quase três mil dessas histórias, até falecer em 1984, aos 81 anos.
Mas nem só de faroeste eu sobrevivia, pois havia séries de espionagem, policiais, ficção científica, romance e até eróticas e de terror (ou tudo isso junto...).
Um sucesso na época foi a série "Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris" escrita - de forma não creditada - pelo jornalista brasileiro David Nasser no antigo jornal "Diário da Noite" (da empresa Diários Associados) de Assis Chauteaubriand, a partir de 1948 em forma de folhetim e depois publicada como série de bolso pela editora espanhola Monterey, nos anos 60, chegando até a década posterior.
Está aí, além dos gibis é claro (ou HQs de super-heróis que estão dando origem a tantos filmes de sucesso atualmente), a minha iniciação como ávido leitor que permanece até hoje, embora tenha me afastado dos livros por causa do incessante e cansativo trabalho.
Aos poucos volto às origens. Não falo dos livros de bolso mas do bom hábito da leitura que, segundo estudiosos, além do prazer das viagens proporcionadas pelos mesmos, o hábito previne até o Mal de Alzheimer.
Neste verão - que para mim vai se estender até o início de abril - tive como meta ler cinco livros na minha "estação de veraneio", com algumas restrições, como não levar publicações para as areias da praia (cumpri até agora, mas tenho dúvidas se foi uma boa ideia).
Um costume que adquiri foi o de ler sempre com um fundo musical: escolho antes os CDs, de acordo com o livro. Mergulho na leitura mas os agradáveis e suaves sons sempre presentes enriquecem o momento.
De forma não programada acabei optando por livros de não-ficção e a maioria relacionados à música, o que não chega ser uma surpresa. Ficaram então de fora livros do Arthur C. Clarke, que trouxe mas não coloquei a mão. Ou os olhos. E um outro documento que precisa de mais dedicação em sua leitura: "Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: A Visão da Espionagem" do historiador Paulo César Gomes.
Das leituras realizadas me surpreendi com "50 fatos que mudaram a história do Rock" (edição ilustrada) de Paolo Hewitt. Não que concorde com ele nos itens selecionados, mas realmente alguns detalhes trágicos que descreve eu não sabia, como o assassinato do soul man Sam Cooke e os fatos que que levaram ao "massacre da atriz Sharon Tate" (então esposa do cineasta Roman Polanski) em 1969 e da relação disso com o seminal grupo de surf-music The Beach Boys. O massacre comandando pela "seita" de Charles Manson (até hoje preso) não foi bem por questões pseudo-religiosas: Manson tinha interesse em se tornar um superastro da música, daí... Leiam o livro pois é uma longa história.
Outro interessante que fez parte do verão foi "Blues" do francês Gérard Herzhafat. Nele um mergulho não só na música, mas no mundo difícil dos negros americanos no início do século XX, que geraram essa música-lamento bem como tudo que veio depois, influenciado pelo Blues: do Rock ao Pop, passando pelo Jazz.
O terceiro livro tem o mesmo nome do segundo, mas trata-se de reprodução de histórias em quadrinhos - criadas também dos anos 1970 - pelo genial (e marginalizado) Robert Crumb, onde ele conta a história de bluesmen dos anos 20 e 30, com uma forte carga dramática e social. Não era para ser diferente.
Restam dois que pretendo "devorar" até o final do mês, começando hoje.
O primeiro é "Os Guinle - A História de uma Dinastia", do historiador Clóvis Bulcão, um profundo mergulho nas raízes e desenvolvimento dessa família aristocrática carioca. Mais conhecida pela associação com o lendário hotel Copacabana Palace e com as conquistas amorosas de famosas atrizes de Hollywood feitas pelo playboy Jorginho Guinle, a família não é apenas isso. Segundo o autor, o glamouroso estilo de vida ofuscou o empreendedorismo visionário dos patriarcas e de seus sete filhos.
Por último, um livro de 2002 que só agora adquiri - em sua 9ª edição, de 2015.
Voltando aos temas musicais, trata-se do surpreendente "Eu Não Sou Cachorro, Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", do jornalista e historiador Paulo César Araújo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos). Com certeza este livro vai merecer uma resenha à parte. Além de contar a história da música brega do período 1968 - 1978 o autor prova que "um importante capítulo da história do Brasil e da música popular vem sendo muito mal contada".
Independente do sucesso da polêmica empreitada, com certeza vou gostar do que for contado pois - vai aqui uma confissão -  além de Jazz, Blues, Rock e MPB mais "intelectual" (e nas diversas vertentes desses estilos), fui fã de nomes como Fernando Mendes, José Augusto, Odair José, Paulo Sérgio, etc. Isso enquanto lia os livros de bolso do Estefania. Mas não contem pra ninguém, ok?!

Trilha sonora enquanto escrevia estas mal traçadas linhas: Não foi ...aquela menina em sua "Cadeira de Rodas" de Fernando Mendes, mas o CD "Spark Of Life" do Marcin Wasilewski Trio w/ Joakim Milder, da ótima gravadora alemã ECM Recods,




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As peras e o tempo

Certa vez uma amigo me disse que não ligava para as memórias, para o passado. O que vale é o momento presente, segundo sua visão de mundo.
Não importava - para ele - se eram momentos bons ou ruins a serem deixados para trás. Eles tinham que ficar lá e nada mais.
Esse "nada mais" é o xis da questão.
Há filosofias, talvez a budista, que podem dizer algo semelhante. Não sei. E tem, talvez, os existencialistas. Fiquei sem esboçar reação diante daquela declaração.
Estaria ele correto? Serviria tal proceder uma matéria para reflexão a ser  aplicada em minha própria vida?
Faz tempo desde esta declaração, mas eu nunca esqueci. Ele provavelmente já. Aliás, como faz muito tempo que não o vejo, deve ter até esquecido de mim também.
Nunca me pareceu ser uma pessoa infeliz ou com algum problema psicológico, o que pode depor a favor de seu estilo de "esquecimento de tudo", sempre seguindo em frente.
Eventualmente me recordo disso quando lembranças afetivas me incorrem. O que não é raro. Aliás, ligado em imagens, sons, cheiros, histórias e emoções, concluo que não sobreviveria sem as memórias.
O filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", de 2004, explora um episódio do que poderia ser isso, nesse caso em uma terminada história de amor. Na verdade nunca acabada. A sinopse diz: "Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa." E mais não conto em respeito a quem não viu. Mas é na linha do raciocínio do amigo, neste caso em uma base de fantasia imaginativa.
Ao tocar neste tema me lembro exatamente agora de uma bela garota que sentava ao meu lado na escola primária, no distante subúrbio da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no Rio.
Não lembro de quão bonita ela era, ou se era, eu tinha uns 12 anos, mas lembro que gostava dela. Não esqueci seu nome e confesso que, por uma curiosidade beirando o ridículo, andei procurando seu nome no Facebook. É claro que não encontrei. Ainda bem. Há 45 anos não tenho notícias.
As chamadas memórias afetivas são combustível que alimentam respostas que não temos. Sobre o significado da vida, por exemplo. Sobre o "ser".
Com elas multiplicamos nossa existência, da mesma forma como ao ler um livro que prende tanto a atenção que nos desligamos do agora. Ou quando ouvimos músicas que nos emocionam.
Ou seja nem sempre o agora é o que importa. Não o tempo todo.
Há situações do passado que nunca se repetirão. Ou acontecerão de forma diferente. Ou findarão por acontecer o que antes apenas se desenhou.
Tais divagações se apresentaram agora por um motivo inusitado: uma pera. Sim, a fruta. E acho que não é a que vocês conhecem como tal.
Neste carnaval estivemos em um distante distrito do município serrano de Trajano de Moraes, altitude de 700 metros. Local de difícil acesso mas com fácil possibilidade de se apaixonar por ele. Como é mais alto que a cidade a que pertence, imagino que o distrito deve estar próximo aos mil metros.
No agradável sítio dos gentis anfitrões uma penca de frutas que não vemos nos hortifrutis urbanos.
Não distante da entrada avistei uma árvore carregada. Seus frutos vergavam os galhos e formavam um tapete no chão das que vinham caindo constantemente, de maduras.
Ao ser informado que se tratava de um pé de pera me aproximei para conhecer tal raridade para mim. Quando cheguei perto, peguei uma daquelas frutas e imediatamente fui transportado para minha infância. Aquela não era uma das espécies que encontramos hoje facilmente.
Fazia décadas que não via uma daquelas, ainda mais tirada direto do pé.
Reminiscências me vieram pois a encontrávamos a preços baixos nas pequenas quitandas do longíquo bairro da já minha distante infância.
A chamávamos apenas de pera. Ao que parece é de uma espécie asiática, também conhecida como pera-dura ou Keiffer, de sabor levemente ácido.
Me surpreendi como uma simples fruta, com seu formato, cor, cheiro e sabor tem tal poder. Assim é com o picolé caseiro - feita naquelas formas de alumínio - de abacate, a manga que nos lambuzava, o tamarindo que nos dava água na boca, etc.
Nestes segundos emocionantes de viagem no tempo e espaço me veio a certeza da impossibilidade de aplicar a filosofia do amigo existencialista.
Ao lembrar da fruta, das meninas bonitas de minha infância e adolescência, dos amigos de todos os tempos, dos filmes, discos e livros que me emocionaram e emocionam, dos momentos vividos e dos não vividos por motivos vários, a certeza de que os segundos não nos fogem pelas mãos do tempo, como parece ser: estão conosco em cada momento presente e futuro, nos embalando e sustentando, mesmo que não nos demos conta disso.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O Pitoresco Caso do Ombro Congelado


Ele chegou cedo na clínica de fisioterapia. Por volta das 8 h, conforme estava marcado. Estranhou o fato de não ser sua fisioterapeuta que o estava aguardando. "É aniversário da filha dela", disse a substituta.

Ok, vamos lá.

Fazia algum tempo que estava com um problema no ombro direito. Depois de três ortopedistas e mais três exames de imagem, o diagnóstico foi de "capsulite adesiva". Estranhou o nome. "Pode chamar também de ombro congelado" informou um dos médicos. Essa denominação não melhorou muito a percepção de estranhamento. Parece que inventam novas doenças três vezes por semana.
"Uma inflamação de causa desconhecida que regride com o tempo, fique tranquilo, mas tenha paciência e siga o tratamento".
O médico receitou um remédio. Ele leu a bula. Era para psicose, surtos, etc. Atuava no sistema nervoso central. "Doutor há algo errado. Me receitou um medicamento que não tem nada a ver. Eu não estou alucinado. Pelo menos por enquanto".
Pacientemente lhe foi explicado: "o princípio ativo é para isso mesmo ou era. Depois viram que não fazia quase nenhum efeito para psicoses, mas acidentalmente descobriram que aliviava dores e melhorava quadros como o seu. Passou a ser remédio de referência para esses casos de capsulite".
Huummm...
Aceitou tomar mas como uma dosagem reduzida. A bula era assustadora, como todas as bulas. Vai que tem efeito contrário e ele pira de vez...

Mas o fato é que realmente os movimentos do braço estavam restritos, o ombro estava parcialmente "endurecido" e não era bem aquela parte de sua anatomia que ele desejava que permanecesse assim por longos períodos: "Doutor, se eu tivesse tomado aquela pílula azul poderia dizer que foi ela que errou de endereço!". O ortopedista deu uma boa gargalhada. "Fisioterapia", receitou ele em complemento ao medicamento. "Evite fisioterapeutas mulheres e bonitas, senão o ombro pode endurecer mais". E voltou a gargalhar. Bem, quem primeiro fez a piadinha foi ele, agora tinha de aguentar.

Havia começado o tratamento há um mês e os resultados estavam sendo bons.
Naquele dia a fisioterapeuta substituta perguntou qual ombro, ele apontou o ombro esquerdo - o da tatuagem (já esmaecida pelo tempo, precisando de muitos retoques) do sol com uma Clave de Sol dentro - conversando sobre temas diversos ao mesmo tempo ouvindo um blues que tocava na pequena caixa de som. "Blues em uma clínica? Fato raro...". Era Eric Clapton. "Bell Botton Blues".
A fisioterapia consistia em manipulação do ombro e do braço, forçando um "descolamento". Extremamente doloroso. Quase uma seção de tortura dia sim dia não.
No entanto, naquele dia ele não sentiu nada e o braço parecia ter os movimentos já normalizados. Ficou intrigado: "Não era um tratamento demorado? Será que aconteceu um pequeno milagre com uma melhora de 100% de um dia para o outro? Ou será a fisioterapeuta substituta que tem um método diferente?".

A manipulação terminou e foi colocada bolsa de água quente como parte do tratamento, ali bem junto da tatuagem.
Fechou os olhos, relaxou ouvindo o blues, quase pegando no sono.
Eis que abre os olhos repentinamente, afasta a bolsa de água quente, senta-se na cama com um misto de incredulidade e raiva.
A fisioterapeuta, que estava ao lado atendendo outro paciente, olha meio que assustada para ele e pergunta o que estava acontecendo.
Ele olha para ela já resignado e diz apenas: "Te indiquei o ombro errado!".



P.S.: A historinha engraçadinha ficcional acima não tem nada de ficcional. Aconteceu. E foi comigo! Podem rir. :)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O meu Carnaval e The Walking Dead

Não é de hoje que dizem que carnaval é a "festa da carne". Com a picanha maturada custando mais de R$ 40 o quilo concluímos que trata-se de um evento chique, para poucos, considerando a crise econômica.

Uma foto postada mostra dois produtos lado a lado em uma drugstore: uma lata de leite em pó especial para crianças com menos de 1 ano (R$ 50) e um envelope de camisinhas (R$ 1,50). Há diversas versões e preços. A cruel comparação indica qual a obvia melhor opção econômica, mesmo não sendo a ideal em termos de prazer momentâneo.
Mas evita os chamados "filhos do carnaval", nascidos nove meses depois da folia de Momo. E de quebra garante uma proteção extra para a saúde, sobretudo no esquema "ninguém é de ninguém', no vale tudo do MMA de fevereiro.

Piadas e considerações infames à parte, a maioria brinca o carnaval sem a suposta necessária trilogia "Sexo, Drogas e Rock'nRol". Talvez "Beijos, Cervejas e Samba" soem mais light e adaptadas à nossa realidade festiva e tropicaliente.

Há críticas contundentes à suposta alienação do brasileiro nesses dias de fantasia mas, convenhamos que a galera merece um refresco, ou muitos chopps estupidamente gelados, depois do que já veio e do que virá. Pode ser Skol Beats vermelha, verde, amarela, azul ou preta também. Uma festa de cores.

Para quem gosta, tem ânimo e preparo físico para pular atrás dos blocos, trios e escolas de samba ao longo de quatro dias.
Há um certo motivo para a chamada "alienação" carnavalesca. Hoje, por exemplo, a Assembleia Legislativa aprovou à toque de caixa (literalmente) a privatização da Cedae à mando do incompetente governo estadual, atendendo ao desmando do espertíssimo governo federal. Sem entrar em discussões políticas, a ação foi vergonhosa.
Mas o tema é o período carnavalesco.

Eu já não tenho mais o necessário ânimo e disposição para essas maratonas sob o sol de 40º à sombra, entrando noite à dentro à bordo de altas consumações etílicas. Já foi o meu tempo. Há muito tempo.


Aliás à última sequência de "viradas" que me lembro de ter participado ativamente nem foi no carnaval. Foi no primeiro Rock in Rio, em 1985. Os shows começavam às 15 horas e terminavam por volta das 3 da madruga. Mal dava tempo de chegar em casa no subúrbio, descansar um pouquinho e partir de volta para a Barra.
Em retrospecto, não sei como sobrevivi, levando em conta os copos de 750 ml do chopp Malt 90 que chegavam em caminhões pipa. Bem, eu tinha vinte e poucos anos...

Minha maratona atual é de filmes, séries, livros e discos, preferencialmente com o ar condicionado ligado, à não ser que na rede (não a wi-fi) esteja soprando uma brisa fresca vinda do mar.

É possível que busque refúgio na serra, cercada de verde e riachos, ali por perto de Lumiar, como fiz ano passado. Mas uma coisa é certa: se não quiserem me encontrar procurem atrás de um bloco ou trio elétrico. O que não deixa de ser preocupante pois, segundo Caetano, "atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu...". Seria eu zumbi? Acho que assistir "The Walking Dead" no carnaval pode ser a minha opção.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sobre hoje de manhã

Ouvir rádio no carro já não é mais um hábito que cultivo. Eu e quantos mais?
Com o pendrive "espetado" direto na entrada USB, a busca por uma boa emissora musical ficou no passado.
E, além do pendrive, tem a entrada para cartão de memória e o bluetooth, que se conecta com as músicas do Smartphone.
Sem esquecer conexões auxiliares e os CDs, que ainda uso.
Quem precisa de rádio para ouvir música? Até porque está cada vez mai difícil achar boas programações nas emissoras FM das cidades.
No entanto, uma surpresa me estava reservada nessa manhã. E tem a ver com memória afetiva.
Acordei cedo, por volta 06:30 h. Eu consideraria isso tarde há alguns meses, quando era despertado cruelmente às 04:40 h, de segunda à sexta, para o trabalho. Escapei dessa rotina.
Tinha horário marcado com a Fisioterapeuta, às 8:00 h, para uma avaliação de um problema no ombro direito que a medicina carinhosamente batizou de "capsulite adesiva" ou algo parecido. Os movimentos ficam restritos e levantar o braço acima de 90 graus pode ser uma dificuldade. Me falaram que é doença de rico, ao qual respondi que ela tinha então errado a mira. Afinal a conta corrente não anda lá essas coisas...
Como pediram para eu chegar uns 20 minutos antes e, como me demorei no banho, percebi ao sair de casa que estava um pouco atrasado.
Pensei em um caminho alternativo, que cortava pela praia, o rio e chegava em um ponto que seria mais fácil estacionar, no centro, onde se localiza a clínica.
Sim porque estacionar em locais de movimento é um problema que deixou de ser privilégio das grandes cidades. Bem como estacionamentos que cobram caríssimo a hora. Isso quando tem. Vocês sabem...
Ao ligar o carro não entraram as músicas do pendrive mas uma estação FM local com uma música sofrível. Com a pressa, ao invés de apertar o botão "Mídia", toquei naquelas setinhas de procurar estação. Peguei o referido caminho só pensando no horário marcado.
O aparelho ficou em looping e nada de parar em uma estação. E eu sem música no carro.
Exatamente quando chego em frente ao mar o rádio pára em uma emissora. O som claro de um clarinete acompanhado de conjunto de câmera preenche todos os espaços. Não sou de ouvir música clássica (embora tenha alguns bons exemplares em CD e vinil na minha coleção), no entanto, a surpresa de ouvir aquilo naquela hora da manhã em uma emissora de radio me causou surpresa.
Olhei no painel digital e o número indicava 99.3. O que seria aquilo? Alguma transmissão experimental? 
Me lembrei imediatamente da MEC FM, uma emissora do governo federal que eu ouvia lá pelos fins dos anos 70. Mas ela não existia há muitos anos. Ou não? Além disso estava um som muito nítido para uma emissora que distanciava tantos quilômetros de onde estava.
O fato é que, curioso para saber que estação era, deixei o som rolando enquanto olhava o oceano à minha esquerda, pela janela lateral do meu automóvel (não "da janela lateral do meu quarto de dormir", como cantava o Lô Borges e o Milton em sua clássica "Paisagem da Janela" do Clube da Esquina).
A música soou perfeita para o momento, para o percurso quase deserto que eu havia optado e até esqueci que estava atrasado: parei para tirar umas fotos (de dentro do carro mesmo) com o celular. Do mar e do pequeno rio que atravessava, em direção ao centro da cidade.
Interessante como a surpresa daquela música me fez parar de pensar no meu atraso, na vaga para estacionar, no veredito da fisioterapeuta.
Prestei atenção na paisagem, no sol, no azul, no verde ao som da clarineta.
Quantos momentos estressantes podemos reverter para um momento de paz, apaziguando a mente sempre ocupada com mil coisas ao mesmo tempo? Focar no momento presente, atento a pequenos detalhes sem importância, parece ser uma saída. Mas não é tão fácil como alegam alguns especialistas em meditação.
A música acabou, a locutora entrou e informou: era a MEC FM sim! Acho que nunca saiu do ar. E aí me lembrei de outras emissoras daqueles tempos, da Mundial AM até a Radio Relógio Federal. Tempos em que o radinho de pilha era nossa companhia em todos os momentos.
Ao escrever essas sofríveis linhas tentando narrar episódio corriqueiro para possíveis curiosos, ouço a MEC FM no notebook. Se senti saudades do velho radinho, há de se reconhecer também a importância das novas tecnologias. Hoje o rádio pode estar no carro, mas também no Smarthphone ou no computador.
Voltando ao percurso matinal, cheguei e estacionei fácil o carro, na sombra. Era oito em ponto. Ao desligar o veículo a música parou. Mas eu já estava suficientemente em paz para encarar a fisioterapeuta que, além de ótima profissional, era bonita! O que, se não é um fato primordial, serve para terminar com algum impacto esta pequena crônica...


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Os Ipês Amarelos Sobreviventes

Seja na correria dos deslocamentos de carro ou transporte coletivo, seja no fato de ficarmos trancados o dia todo em um escritório, é fato que cada vez menos reparamos o universo ao nosso redor (parafraseando o título de uma bela canção da Marisa Monte).
Na manhã desta terça-feira de outubro uma chuva fina caía. Amena temperatura sinalizava que ainda estamos na primavera, apesar do horário de verão.
Precisava me deslocar até a Rodoviária para comprar uma passagem. Apesar da chuva, sabiamente optei por ir caminhando. Até porque é perto de minha casa. E me livro de ter de procurar vaga para estacionar, fato que tem incomodado todo mundo, tanto nas metrópoles como em cidades de médio porte.
Esta cidade plana não é exemplo de bom urbanismo: ao longo de décadas os gestores perderam a oportunidade de humanizar e harmonizar pessoas com seu entorno. Faltam calçadas dignas, ciclovias, árvores, gramados, transporte público. 
Sobram carros, ônibus barulhentos, calçadas alquebradas, buracos e tons de cinza. Neste caso não me refiro ao céu nublado de hoje.
A Rodoviária fica no centro da cidade, parcialmente cortado por um canal que é chamado de valão. O que não é em vão: curso d'água que é pura poluição. Prosa que rima mas que não é poética.
No entanto, fora dos carros e dos escritórios e no meio do caos do trânsito, da fumaça que escurece o ar, dos motores que ensurdecem os sons naturais, semi-milagres podem acontecer.
Atravessei a pista dupla ao lado do terminal rodoviário. Alguma coisa me chamou atenção.
Tirei do bolso o celular, escolhi o ângulo e fotografei.
Ipês Amarelos florescendo ao lado dos automóveis, do valão, da gritaria urbana.
No chão um tapete amarelo acima de uma grama verde que serpenteava em estreita faixa deixada ali como esmola, uma vez que a prioridade são pistas largas para os milhões de veículos.
A foto é a que mostro neste post. Verdade que tive de usar uma estratégia para criar um panorama lindo, natural, posicionando a câmera de forma a não mostrar a confusão urbana.
Mas é fato que os Ipês Amarelo me ajudaram a lembrar que estamos na Primavera e que, apesar de nós, eles continuam resistindo, mostrando que a verdadeira beleza urbana pode não estar naquela BMW ou naquele imenso prédio de vidros espelhados.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

John Coltrane: um amor supremo e a chegada da primavera

Quando vou fazer alguma tarefa ou ler um bom livro costumo colocar um fundo musical.

Na verdade acho que é o contrário: trabalho ou leio enquanto fico atento ao que talvez seja o principal - a música.
No caso das leituras consigo achar facilmente a trilha-sonora adequada.
Obviamente também quando estou escrevendo, de acordo com o tema.
Até quando dirijo, manter o foco na estrada não é problema quando o fundo musical é correto.

Hoje ouvi Miles Davis ("Kind of Blue") e John Coltrane ("A Love Supreme").

Não é uma música que - a meu ver - funciona bem durante o dia. Jazz é música noturna. A não ser que seja um dia chuvoso ou pelo menos nublado e frio. Para mim Jazz não combina com sol forte.

Uma estratégia para nossos dias tropicais é optar pelo estilo Smoth Jazz, que tem uma leveza rítmica e melódica mais solar, inclusive com fortes conexões com a música brasileira, Bossa-Nova entre elas. Mas esse gênero merece uma dissertação à parte.

Na hora em que ouvi os citados discos, estava lendo “Todos os Contos”, coletânea completa das histórias curtas de Clarice Lispector. Um vento quase frio soprava e as nuvens cobriam a luz do sol, com breves períodos de chuva fina. Sinais de um Inverno que se despede: começa depois de amanhã, quinta-feira, dia 22, a Primavera. Ela se anuncia através das flores que começam a se mostrar. Assim, as histórias únicas de Clarice e as músicas se conectavam com o momento presente.

Sobre um dos discos citados, vale a pena reforçar a importância de Coltrane, um gênio do mesmo calibre de Miles, só que com uma produção menor. Ele foi o primeiro (talvez o único naquele período, depois vieram outros via “Spiritual Jazz”) que buscou, dentro do Jazz, oferecer ao ouvinte uma experiência espiritual, fruto de suas próprias sensações acerca da presença de Deus em tudo.

À frente de seu tempo, uniu visões místicas do ocidente e do oriente.

Ouvir determinadas criações de John Coltrane - no momento certo - pode mesmo inspirar instantes de meditação, paz e plenitude. Mas tem de estar conectado, o que é difícil com tantas tarefas nos esperando hoje em dia. E não precisa necessariamente gostar do Jazz clássico, embora em um primeiro momento possa parecer uma música “difícil”. Há de se superar isso e entrar no universo do mito do Sax.

Sobre ele, o músico e estudioso alemão Peter Michael Hamel – em "O Autoconhecimento Através da Música", citando Joachim Berent de "A Música e a Meditação" - escreveu: "Coltrane tocava seu sax-soprano com a sonoridade oriental da shenai ou da sukra. Esta maneira de tocar somente se impôs mundialmente ao se introduzir um elemento ideológico, a inclinação de Coltrane para a religiosidade asiática. Ele conscientizou grande parte do ambiente jazzístico americano sobre a realidade da meditação, e sob sua influência muitos dos músicos que tocavam com ele começaram também a meditar."

É bom frisar que estamos falando da primeira metade dos anos 60.

Coltrane, na obra-prima "A Love Supreme", fez sua oração: "Louvado seja o nome do Senhor. Ondas de pensamento, ondas de calor, todas as vibrações levam a Deus... Deus respira integralmente através de nós tão ternamente que mal o sentimos... Ele é nosso todo... Eu te agradeço, Deus."

Ao som de Coltrane (música "Psalm") e de sua mensagem através de suas criações, desejo uma ótima Primavera a todos.

Wikipedia:
"A Love Supreme" - Esse disco, considerado sua magnum opus, é um ode à sua fé no amor e em Deus (não necessariamente o Deus cristão - na capa do disco "Meditations" ele diz "Eu acredito em todas as religiões").
Este interesse espiritual iria caracterizar muito a forma de tocar e compor de Coltrane a partir de então, como pode ser visto em álbuns como "Ascension", "Om" e "Meditations".
O quarto movimento de A Love Supreme , "Psalm", é, de fato, um arranjo baseado em um poema feito para Deus por Coltrane e impresso no álbum. Coltrane toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ao Cair da Noite


Essa frase que uso como título é uma referência a uma sensação sentida a cada fim do dia: o anoitecer me perturba.
Na verdade há um exagero literário aqui. Não me incomodo diariamente às 18 horas. Até porque é um momento sagrado na liturgia católica que eu aprendi a observar: Ave Maria! Até nem deveria, pois minha formação inicialmente batista e depois espírita kardecista me deixariam à vontade para não dar relevância a isso. O que pelo menos dá uma pista da minha volatilidade religiosa. Mas isso é outro assunto.
Seria o anoitecer uma metáfora dos fins dos tempos ou, pelo menos, a recordação da finitude de todas as coisas? Ao término da claridade me sentiria como que lembrado de que meu tempo urge? Seria esse o motivo dessa leve perturbação?
Nem tão dramático assim, afinal é na noite que os grandes mistérios e segredos se fazem acontecer.
Transgressões, quebra de regras, beleza da lua refletida no mar, brilho das estrelas, luzes indiretas que passam através das casas envidraçadas, gatos que passeiam por entre escadas, músicas ouvidas à meia luz, peles sedosas, de jazz... O que seria dos poetas sem a noite, que chega de mansinho e toma conta primeiro da alma e depois do corpo, como se fossem entidades separadas que finalmente se unem ao fim de cada dia? E lhes dá todos esses temas para que sua poesia venha à luz (ou à penumbra)?
Devaneios à parte, ao me sentar na pequena escrivaninha do meu quarto para escrever algo que eu não sabia o que era, olhei pela janela procurando algo indefinido, possivelmente uma inspiração que não viria. A luminosidade natural já estava em seus últimos momentos e uma leve melancolia talvez tenha meio que tentado se infiltrar por entre as dobras das emoções.
Talvez algum pequeno poema que eu tenha lido e não me lembre sugerisse essa conexão. Mas não me deixo abater pois a noite chega depois de um dos momentos mais lindo do dia, o por do sol.
E a noite precede uma das melhores sensações que temos: o recomeço da vida a cada novo amanhecer.
Entre o entardecer e o nascer do sol ela acontece e, se tentássemos recapitular a vida, é provável que as mais marcantes emoções tenham ocorrido sem a forte claridade do astro maior dos trópicos.
Talvez próximo das 18 horas, talvez por volta da meia-noite.

domingo, 4 de setembro de 2016

Quando Entra Setembro

Poderia começar essa pseudo-crônica com uma frase poética do tipo "um dourado luar sobre aquela noite tropical". Mas não estou conseguindo obter a sutileza que versos e sensações exigem.
O fato é que setembro chegou e eu tenho a impressão que existe algo fora de ordem. Não, nem tanto.
Não seria a primeira vez. Na verdade o normal é um certo desconforto com a proximidade do fim de mais um ciclo anual.
Por outro lado, qual a importância de estar "de acordo com a ordem estabelecida"?
A primavera vai chegar e com ela a sinalização de que o verão não está distante. Mas agora brilha o sol de agradável luz pálida e o panorama noturno é embalado por amena temperatura que nos convida a parar para olhar o céu.
A vida acontece entre os verões. No verão hiberna-se - próximo ao mar, se possível ou na serra - neste quente estado litorâneo.
E muita coisa aconteceu neste entre-janeiros.
Pela janela da alma vejo com lentes de vidro que eventualmente podem distorcer a realidade.
Mas minhas emoções se reportam a acontecimentos marcantes que não foram criados pelos óculos de aro azul. Acho.
Não confie em ninguém com mais de 30 anos, dizia a velha canção contracultural. Já o escritor Rui Castro alertava para não acreditar em quem pensa em escrever uma autobiografia com menos de 50. Questiono se vale a pena ler um texto que pretende fazer um balanço de 2016 em setembro. Ou é falta de assunto ou é ansiedade pelo que já aconteceu, independente do que ainda vai acontecer.
De qualquer forma, o poeta já falou que essa forma de medir e picotar o tempo é coisa que inventaram para que pudéssemos ter um recomeço a cada 365 dias.
Se falta de assunto não me é preocupante - me entregam temas a cada esquina e meus pensamentos borbulham a cada emoção pressentida - resta então a necessidade de tentar analisar os fatos ocorridos no período ou, pelo menos, registrá-los.
O que, se parece ser fácil, é na verdade um desafio, pois ninguém quer saber do óbvio já traçado exaustivamente pela mídia.
Resta-me a estratégia de focar em assuntos bem particulares: fica mais fácil descrever impressões do que é do meu interior. E aguça a curiosidade dos possíveis leitores. Saber sobre o que pensa cada um das suas próprias experiências e fatos relevantes.
Mas, ai de mim. Teria eu a mínima capacidade de explicitar conclusões racionais e emocionais, ser entendido plenamente e me submeter a possíveis julgamentos? Não tanto dos fatos, mas das minhas impressões sobre eles?
E seriam mais relevantes do que as possíveis impressões que cada um tem dos fatos de sua própria vida?
Há biografias de vidas - ou fases de vida - que merecem ser contadas. Há outras sem nenhum grau de interesse mas que, dependendo da forma como são vistas e contadas, adquirem o ar de algo grandioso.
Se confundem aqui forma e conteúdo.
E fico eu aqui enrolando e não fazendo nenhuma retrospectiva de 2016. Muito menos minhas impressões. E não conto nada de nada. E irrito os poucos que conseguiram chegar até aqui. Bem, pelo menos é setembro e, apesar do título do post, eu não vou citar "Sol de Primavera" - a mais repetida trilha sonora do mês.
Acho que vou esperar dezembro para ver o que mais vai acontecer. Aí eu conto. Vai valer a pena aguardar.
Mentira: é só para deixar meus 17 leitores curiosos. A vida de vocês é mais interessante, creiam. Nossa vida é sempre mais importante. Mas a curiosidade sobre a vida dos outros é sempre maior... É aquela história da grama do vizinho ser sempre mais verde.
Melhor mesmo é ficar com o setembro do Earth, Wind & Fire, pelo menos por enquanto,