quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Lutadora

Estava sentada na sala comum da casa de repouso para idosos.
Assistia pela TV a uma luta de Judô das Olimpíadas do Rio.
Tentei precisar sua idade. Impossível. Já devia saber disso. Não consigo nunca acertar a idade de mulheres. Sempre erro para menos. Ainda bem. O contrário seria no mínimo indelicado.
Mas devia ter entre 75 e 80. Tento aqui, mas sei que devo cair na minha citada incapacidade para isso.
Estava vestida com uma simplicidade elegante. O tom claro de um tecido suave combinava com o a cor da pele, que obviamente continha as marcas de suas histórias.
Maquiada discretamente, nem o batom nem o pó compacto eram inadequados: pelo contrário, cumpriam sua missão de manter o belo espírito feminino vivo. O mesmo dos brincos, colares, anéis e pulseiras. E dos cabelos encanecidos.
Seu interesse no Judô despertou minha curiosidade. De forma vivaz me disse que na juventude havia lutado a arte marcial e que adorava ver combates.
Seu marido havia sido faixa-preta.
Saudades dele? Sim, muita. Foi casada por 40 anos, até que um infarte o levou.
Deve ter sido bom esse convívio de tanto tempo...
Sim. Ele era muito bom.
No entanto, a ex-lutadora me advertiu: "mas não pense que fui santa".
O Judô a apresentou a homens irresistíveis e ela não resistiu. Nem fez força para isso. "Ainda bem", me disse. Senão estaria arrependida agora.
Mas e o seu marido?
O que tem ele?
Acha que foi justa?
Não me entendeu. Disse que a vida tem de ser vivida de acordo com o momento. "Ele deve ter se encantado com algumas lutadoras também". E sorria quando contava isso.
Um dos combatentes da TV, o que estava de azul, aplicou um Ippon e venceu a luta. E eu fiquei desnorteado com a simpática senhora que fez uma rápida análise do golpe certeiro e perfeito. Acho que tomei um Ippon também.
Os filhos moravam no exterior, queriam levá-la, mas ela preferia ficar naquela casa de idosos, onde tinha companhia e estava no seu país.
Não se sentia triste algumas vezes?  Claro que não. Estava em um momento de calma, depois de tanto trabalho, realizações e aventuras. Apenas isso.
Se não tivesse sido tão intensa e aproveitado os seus momentos, talvez hoje estivesse deprimida. "Eu lia Clarice Lispector", me contou baixinho, como se fosse um segredo maior do que havia me contado à pouco.
"E eu escrevia poesias e desenhava para os meus amores", enquanto cuidava dos filhos. Não ficou claro se a referência era em relação exclusivamente aos filhos. Preferi não arriscar a pergunta.
Percebia-se que todos ali gostavam dela, do seu sorriso e comentários marotos. Era feliz consigo mesma. Apenas isso. Uma lição para 'um jovem' 20 anos mais moço.
A TV mostrava agora a bela arquitetura da Cidade Olímpica, em uma tomada aérea da Barra da Tijuca. Atletas caminhavam pela vila colorida e um publico de ampla faixa etária se encaminhava para os estádios.
A senhora já não prestava mais atenção na TV. Olhava para o seu lado esquerdo, em direção à porta, como que se procurando algo.
Posso ajudá-la?
Pode sim.
Como?
Procure saber sobre um senhor que chegou sozinho ontem. Ele usa anéis e pulseiras, igual a você. Desconfio que gosta de Judô também. Quem sabe até da Clarice! Queria muito conhecê-lo, ver o resto das olimpíadas e passear no jardim com ele...

sábado, 30 de julho de 2016

As Impressões de Clarice

Mudei de "condição profissional" e lentamente começo a perceber que posso levar a vida mais lentamente.
Ainda não sei as implicações disso, mais desconfio que não serão negativas não.
Ok, sei que tenho mil coisas para resolver, que estavam aguardando tempo livre, mas a diferença é que agora posso fazer de acordo com minha vontade. Ou quase. Mas ainda vou escrever sobre isso.
Livrar-se do corre-corre diário, das pressões cotidianas é um dos sonhos de consumo da maioria das pessoas. Ilusão achar que isso é possível, de forma completa. Mas buscar aliviar as tensões deve ser uma meta. Desde que não traga... ansiedade!
Com esse tempinho extra na agenda, entre outras coisas, dá para se dedicar mais a boas leituras.
Pesquisando uns livros da Clarice Lispector para comprar descobri que ela morreu um dia antes de completar 57 anos (seu aniversário é 10 de dezembro). Este ano eu cheguei nesse número e percebi como a querida escritora se foi tão cedo. Ainda bem que ela teve tempo de nos presentear com suas impressões sobre a vida, que ficarão eternizadas em nossos corações e mentes.
Dizem que a arte nos salva. A arte de observar e narrar de Clarice foi uma tábua em que ela se agarrou em momentos difíceis de sua vida e nos servem também de reflexão sobre os nossos momentos e nosso próprio existir.
Ter tempo de pensar nisso é um trunfo, mas há de se ter cuidado, pois estamos desacostumados com essa prática, convenhamos.
Nesses momentos contar com gente como Clarice Lispector para ajudar é inestimável.
Essa ucraniana de alma brasileira é uma das principais escritoras de origem judaica do século XX. Não teve vida tranquila, sobretudo depois que se separou do marido diplomata pela necessidade de parar de rodar o mundo e se dedicar aos filhos que precisavam de cuidados especiais.
Se instalou no Leme, que passou a ser o seu lar até o fim da vida (este ano foi inaugurada uma estátua na praia, em frente ao edifício que morava) - cujo término se deveu a um câncer no ovário - em 1977. Lembrando que ela já havia estado bem perto da morte em 1966 quando, ao dormir com o cigarro acesso, provocou um incêndio que a deixou em coma por três dias e quase teve a mão direita amputada.
O seu dom de captar e passar emoções, através de suas observações do cotidiano, criando histórias de pessoas comuns, foi reforçado pela experiência de suas próprias crises existenciais.
Assim, aos 57 anos anos - que a Clarice não chegou a completar - me vejo selecionando algumas de suas frases, retiradas de seus escritos. 
Divido algumas, que acabei de ler agora, com os amigos leitores deste cantinho. 
Nada demais (o que faço, não as impressões de Clarice). Quem sabe algumas dessas observações nos servirão de aconchego em dias reflexivos de inverno, enquanto aguardamos a primavera...
E, desta forma, lá se foi o mês de julho de 2016. Diferente de julho de 1977 (o último dela) ou de tantos outros. Sempre tem alguma coisa especial que acontece. É só observar os pequenos milagres do cotidiano. Como ela fazia. Aguardemos agosto. Não há de ser de desgosto.

As impressões de Clarice:
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
"Eu sou uma eterna apaixonada por palavras, música e pessoas inteiras. Não me importa seu sobrenome, onde você nasceu, quanto carrega no bolso. Pessoas vazias são chatas e me dão sono."
"Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração."
"Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda..."
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca."
"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."

sábado, 16 de julho de 2016

As últimas viagens dos meus ídolos do Rock

Acho que os amigos, sabendo da minha conexão integral com todo tipo de música (bem, nem todos os tipos), vivem me mandando links de assuntos ligados ao tema.
Agora me chega um que diz que "ficar arrepiado ouvindo música significa ter um cérebro especial". Ôpa! Isso pode ser bom ou ruim. O texto é amplo e mostra pesquisas envolvendo eletroencefalogramas em estudantes que ficam arrepiados com algumas músicas e com outros que nunca ficam. Segundo a mesma, "foi possível notar a excitação (sexual e emocional; nota minha: oba!) que os voluntários sentiam ao ouvir os melhores trechos de cada música. Os batimentos cardíacos aceleraram em todos os participantes, porém, aqueles que se arrepiaram tiveram emoções mais intensas".
Seria a comprovação de que uma boa trilha sonora nos acompanhando pode trazer, além de boas recordações, bons momentos no presente. Sempre.
E conclui a pesquisa dizendo que a reação química que o ser humano tem ao ouvir uma música emocionante é parecida com o que sentimos em outras tarefas essenciais, como comer ou fazer sexo. Por isso, o arrepio musical é chamado pelos neurocientistas de "orgasmo na pele". Huumm... Então tem isso também...
Mas foi acidental essa introdução, uma vez que eu ia falar mesmo de música mas não essa abordagem. Bem, de alguma forma sempre tem alguma conexão. Verifiquemos.
Meu assunto é que percebi que meus jovens ídolos do Rock lá dos anos 1970 andam dizendo que estão entrando agora em sua última tour mundial. Quer dizer, nem sempre falam isso, mas nota-se. Assim como eu, aqueles jovens não são mais tão jovens. Tá chegando a hora de se aposentar. Pelo menos da vida on the road.
É bom dizer que não eram só ídolos musicais. Aos 15, 16 anos eu admirava seus cabelos, suas pulseiras, sua postura e seu sucesso com as meninas.
Mas agora o tempo cobra sua fatura.
Por exemplo, o grupo inglês Whitesnake, liderado pelo outrora bonitão David Coverdale (ex-Deep Purple) se apresenta dia 02 de outubro no Metropolitan no Rio. Nome do show "Greatest Hits Tour". Não soa como um resumo final da carreira? O grande Coverdale completa 65 anos em setembro.
Outra querida banda, a alemã Scorpions, se apresenta no Rio no dia 10 de setembro (Pôxa! Mesma data do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras!). Nome da tour: "50th Anniversary World Tour". O que acham disso? O vocalista Klaus Meine está com 68 anos.
Vi essas duas bandas no primeiro Rock in Rio. Em 1985. Há mais de 30 anos!
Mas tem muito mais: em dezembro vem o Black Sabath em sua última tour mundial (assumida). O incrível sobrevivente Ozzy Osbourne também já completou 68 anos. Esse também vi no Rock in Rio 1.
Enfim, diversos dos meus ídolos daqueles bons tempos e que nunca deixei de acompanhar estão sinalizando o fim das apresentações neste e nos próximos anos.
Alguns chegam a dizer que encerraram as atividades mesmo no estúdio. O Pink Floyd, por exemplo, embora David Gilmour continue fazendo suas corridas diárias nos arredores de Londres.
O tempo chegou para eles, o que nesse caso (e em todos os casos) não é mau negócio, pois não sucumbiram aos anos de drogas e álcool, embora possam estar pagando o preço agora. De qualquer forma, a outra opção não era a melhor.
Na minha juventude ia a muitos shows, depois parei por diversos motivos. Acho que tá na hora de aproveitar essas últimas oportunidades. Deles e minha.
Sem dramas.
Mas o fato é que, se o Paul McCartney (que eu nunca vi), por exemplo, vier ao Brasil em 2017 como já foi anunciado, é bom que eu faça um esforço para finalmente ver um dos Beatles ao vivo. Vivo. Desconfio que ele não vai vir outra vez não. 
Por um tempo achei que esses feras fossem congelar no tempo. Ficar eternamente jovens, bonitos, sem perder o pique insano, sem perder a técnica musical, nem terem as vozes modificadas pelos anos.
Provavelmente o que eu queria era acreditar que eu - que os acompanhava tão de perto - também não iria sofrer nenhum efeito dos anos. Melhor dizendo, das décadas.
Ok, eu ainda estou bem, 10 ou 15 anos mais jovem que muitos e eles não estão tão mal, mas o fato é que a realidade bateu no peito, como um impacto de um veloz solo de guitarra. 
Com a última tour desses caras eles estão avisando: "não somos eternos, cara"!
Ok amigos, agora eu sei. 
Valeu por mais essa lição de vida, através de suas músicas. Já aprendi que o tempo passa (e rápido) pra mim também.
Mas com certeza sempre me arrepiarei ao ouvir determinadas músicas. Assim, garanto que, mesmo se chegar aos 100 anos, nunca perderei o citado e inusitado "orgasmo de pele". Pelo menos esse. Espero que vocês também!



sábado, 9 de julho de 2016

No balanço do tempo e das experiências: do velho livro à velocidade do amor

Li alguns livros de auto-ajuda lá pelos idos dos anos 1990. Não leio mais.
Me lembrei disso porque soube que que uma das primeiras obras a focar neste tema está completando 70 anos em 2016. E já passou dos 30 milhões de exemplares vendidos!
Trata-se de "Como Fazer Amigos & Influenciar Pessoas" do americano Dale Carnegie.
Eu não li, mas é de se perguntar como um livro escrito em 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, pode continuar despertando interesse.
A primeira conclusão que podemos tirar é de que as pessoas continuam com os mesmos problemas de relacionamento e auto-conhecimento.
Mas, mesmo sem ler o livro - e apesar de seu contínuo sucesso - duvido que ele permaneça atual.
É claro que alguns mandamentos são perenes e devem estar ali descritos, tipo "sorria sempre", "seja gentil", etc. E aí podemos afirmar que mesmo coisas óbvias precisam ser repetidas para que nos lembremos do básico para uma vida melhor.
No entanto, convenhamos, nem sempre é possível usar de gentileza em todas as situações e, se você sair sorrindo pra todo desconhecido que passar na sua frente, arrisca-se a ser taxado de maluco ou, no caso das mulheres, correr o risco de um louco ficar esperando na esquina mais próxima.
Ainda sobre a obra, o título deve se referir ao fato de que, na época e nos EUA, "fazer amigos" era tarefa árdua. Nem sonhavam com Redes Sociais.
Além disso, o termo "influenciar pessoas" soa no mínimo politicamente incorreto, embora na política é o que continuam tentando fazer o tempo todo.
Dando um salto de 70 anos no tempo caímos em uma época veloz, de muita informação mas pouca percepção. Não há espaço para reflexão mais ampla nesta era de obrigações, deslocamentos, muito tempo dedicado ao trabalho, etc.
Como questionar a vida ou as nossas atitudes e reações com tão pouco livre para isso? E quem quer saber das opções que a vida nos oferece? Apenas vivemos.
Raul Seixas ironicamente disse em uma de suas músicas que duas coisas o preocupavam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Desconfio que atualmente só nos preocupamos com a prestação.
Salva-nos (também ironicamente) as Redes Sociais, onde emitimos opiniões e nos "encontramos" com amigos. Bem, nem todos são amigos. Ninguém nessa altura do campeonato tem condições de ter "um milhão de amigos" como diria o Roberto Carlos.
Pois vejam só, no Facebook e no WhatSapp uma das coisas legais que vejo são citações de escritores e poetas que podem ser considerados recados de auto-ajuda ou, no mínimo, dicas para reflexão.
No entanto me lembrei que eu lia aqueles livros naqueles tempos e o maior problema era fixar o que tinha lido e aplicar no dia a dia. Mas eram livros inteiros.
O paralelo com o momento atual é que são tantas informações que lemos aquela breve citação, curtimos e passamos para o próximo post.
Não ficou nada registrado em nossa mente da Clarice Lispector, do Mario Quintana, da Adélia Prado, do Drummond, da Martha Medeiros ou até (ok, ok) do Dale Carnegie.
E olha que são recados curtos se comparados com livros. Fácil de ler, complicado para refletir e questionar nossas próprias atitudes. Permanecemos então com um padrão que perpetua-se ao longo da vida: as nossas naturais mudanças são na verdade mudanças "cosmésticas", assim como nosso corpo muda com o tempo, independente de nossa vontade.
O que gera outro questionamento: mudar o que e pra que? Melhor não pensar nisso e seguir a vida certo? Não sei não. O fim da estrada está logo ali depois daquela curva e otimizar a curta existência deveria ser meta de todos.
Tentar aproveitar mais a vida, os momentos e as novas boas experiências que se apresentam.
Mas, volto a dizer, quem tem tempo para isso?
Não sou lá muito adepto do Paulo Coelho mas tem um livro dele que tem um título (e um tema) muito interessante. Chama-se "Onze Minutos". Sabem do que trata esse título? Segundo pesquisas mundiais é o tempo médio que se gasta para ter uma relação sexual. Mais corretamente "fazer amor". Em alguns países isso não passa de seis minutos! Tempo de um intervalo comercial. Preliminares? O que é isso?
Não estou dizendo que este é o mais importante tema do mundo mas, por outro lado, não deveria ser tão pouco importante. Uso o assunto apenas como ilustração (sem fotos explícitas, fiquem tranquilos) de como estamos caminhando para o automático, para não experimentação, para a falta de preocupação com o que é o existir e suas sensações e emoções. Com o outro. Sabores, perfumes, sons, pensamentos, abraços, diferenças.
Corremos e lutamos para chegar. Chegamos, E agora? Onde estão mesmo os outros que foram em outras direções?
Mas, não sei não. Essas minhas impressões despertadas pelo livro que completa 70 anos e que não li e nem vou ler parecem soar um tanto quanto fora de sincronia com o tempo presente. Como se fosse uma frase da querida Clarice Lispector.
Enfim, sigamos em frente. Se refletindo, experimentando ou simplesmente "seguindo em frente", é uma abordagem de cada um.
Todo o assunto que tento humildemente abordar aqui nessas impressões, me faz recordar uma ou mais músicas. A citação do livro do Paulo Coelho me lembrou do título de uma música da adorável pianista Susanne Ciani; "The Velocity of Love". Desconfio que ela quis ser irônica com esse termo, pois a linda canção é bem lenta... Como deve ser a tranquilidade do amor. Aliás não deixem de assistir ao vídeo dessa linda música, que insiro abaixo. Apesar do touro assustador da introdução, o filme é muito bonito.



Suzanne Ciani

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Uma Trilha Sonora Para o Inverno

Nesta semana aconteceu o Solstício de Inverno no Hemisfério Sul. Foi quando entrou o Inverno, mais precisamente segunda-feira passada, dia 20.

A definição de "Solstício de Inverno", segundo Dr. Google (M.D.), é de ser um evento astronômico em que o Hemisfério Norte está mais inclinado na direção do sol. Estamos então ao contrário. Lógico. Verão lá, Inverno aqui.

Ah! Me lembrei! Não confundam com Equinócio, que é outra coisa, mas que eu não vou falar aqui agora senão o texto vai ficar chato e nem eu vou ter paciência de reler.

Esses períodos tinham muita importância para antigas religiões conectadas com a natureza, desde a China até a Irlanda (dos povos Celtas). Muitas celebrações destinadas à presença Divina nos fenômenos naturais, mudanças de estações e para a natureza de forma geral eram feitas. Até hoje devem acontecer em algumas regiões.

Mas, outra vez, não é objetivo destas mal traçadas linhas fazer um mapeamento de antigas celebrações. Encontrarão isso facilmente consultando o já citado e respeitável "Doutor".

Will Ackerman e seu refúgio na montanha: nada mal.
A Windham Hill é uma gravadora independente americana criada em fins dos anos 1970 por um poeta, carpinteiro e ótimo violonista nas horas vagas. William (Will) Ackerman tocava de forma diferente as cordas de aço do seu instrumento. Suavemente. Quem ouvia adorava. Seu primeiro disco foi financiado pelos amigos da faculdade. Com o sucesso alcançado veio a gravadora que por 20 anos lançou discos de música instrumental de diversos músicos conectados a uma sonoridade mais tranquila, pacífica, mas de alto nível técnico, com referências à música Folclórica, Clássica, Jazz, Fusion e New Age.

Em 1996 ele vendeu a gravadora para a BMG que depois passou para o controle da Sony Music. Atualmente não são mais lançados produtos novos pela Windham Hill, apenas coletâneas do extenso e excelente catálogo da ex-gravadora independente.

Mas Will Ackerman não parou e atualmente possui um belo estúdio de gravação, onde mora, o 'Imaginary Road Studios' em West County, região montanhosa do estado de Vermont, Nordeste dos EUA, na fronteira com o frio Canadá. Um lugar de bela natureza que reflete o tipo de música feita ali. Ele produz e lança discos de outros artistas pela gravadora West Rivers Records, especializada em música instrumental contemporânea.

Quem chegou até aqui deve estar se perguntando porque comecei com um assunto e passei para outro, sem maiores explicações.
Vamos tentar conectá-los então. Uma tradição de Will Ackerman é promover concertos de Inverno na época do Solstício. Para ele sua música e a dos seus amigos tem conexão especial com essa época. Neste caso falo do mês de dezembro, quando chega o frio no Hemisfério Norte. Se olharem a página dele poderão se certificar que já existem alguns concertos marcados para o final de 2016 (http://www.williamackerman.com).

Uma das séries de coletâneas da Windham Hill Records chama-se "A Winter’s Solstice". Eu possuo um desses CDs. Exatamente o que comemora 25 anos da criação da gravadora. São treze artistas, com músicas belíssimas. No entanto uma coisa sempre me causou estranhamento. A capa do disco traz a imagem do Inverno no Hemisfério Norte, ali mesmo na fronteira com o Canadá. Muito frio e neve na montanha. Se a música tenta traduzir isso, obviamente não é fácil a um ouvinte do Hemisfério Sul sentir uma conexão tão completa, como gostaria o artista criador. Para mim então, que nunca vi neve na vida... Ok, música é música, no entanto sempre tento ir além do simples ouvir.


Na fronteira com o Canadá: verão e inverno
Mas, vejam só, por pura coincidência, neste mês de junho, remexendo nas centenas de CDs, eis que acho o disco esquecido lá no alto da estante. Será coincidência mesmo?

O fato é que há muito tempo não fazia uma união de tempo chuvoso com temperaturas próximas dos 15 graus à noite em plena Região Sudeste. Não deu outra: peguei uma garrafa de vinho e coloquei o disco para rodar. Pela janela da minha sala não via o branco da neve. Apenas o verde de um coqueiro sob a chuva fina e as luzes da torre de uma igreja. Mesmo assim, em minha audição, consegui chegar perto do que seria um "Winter Solstice", segundo a tradição do norte frio. Bem, talvez o vinho tenha ajudado...

Quem sabe um dia vou até Vermont e, na montanha do William Ackerman (Windham Hill), escuto e vejo o som da natureza, mesmo que for em um "Summer Solstice", o que para mim, dos trópicos, já vai ser frio o suficiente, mesmo sem neve.

Mas, enquanto isso, retorno à minha realidade urbana/suburbana/rural e lembro que frio aqui é sinônimo do dia de São João, que é amanhã. E na Festa Junina não cabe trilha sonora da Windham Hill Records. Só um forró ou xote dançante. O que não é nada mal, convenhamos. Quem sabe seja uma forma diferente de celebrar, ainda que inconscientemente, o Solstício de Inverno Tropical.





sexta-feira, 17 de junho de 2016

Lembranças Musicais: Do Rádio de Pilha ao Smartphone

Eu e minhas lembranças nostálgicas. Ainda bem que não estou sozinho. E também não quer dizer que não esteja antenado e vivenciando tudo - ou quase tudo - de novo que aparece por atacado nos correntes dias.

Desta vez andei me lembrando, vejam só, do antigo radinho de pilha. Sim aquele mesmo. Acho que todos tivemos né?! Lá em casa tinha um, que acompanhava meu saudoso pai e que depois, ainda jovem, aderi.

As novas gerações não estão muito ligadas em ouvir rádio. Vocês já devem ter percebido isso. Diversos fatores contribuíram para esse distanciamento.

Na minha época de infância (lá vou eu de novo), subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, ouvir rádio era hábito obrigatório para quem gostava de música. Poucos tinham condições de adquirir equipamentos de som nos anos 60. Aquelas grandes Radio-Vitrolas que eram verdadeiros móveis de luxo na sala. A opção era o rádio de pilha. Pilhas Ray-O-Vac.

Ainda não existiam as emissoras FM, de melhor qualidade sonora, que começaram a surgir em meados dos anos 70. Daqui a pouco falo delas.

As rádios AM (Ondas Médias ou Amplitude Modulada) dominavam a programação, que era de alto nível. Tinha que ser mesmo pois as opções do Pop, do Rock e da MPB da época eram nada mais nada menos que Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Chico Buarque, Milton Nascimento, Mutantes, Novos Baianos, Gil, Caetano... Só para citar alguns.

Eu ouvia muito a Radio Tamoio e a Radio Mundial (AM 860), que tinham uma bela disputa de audiência entre elas.

Por exemplo, na Tamoio existia o programa "Musical dos Colégios". O DJ dizia: "música do Colégio Pedro II", Beatles, "Hey Jude"(!). Aí o pessoal ligava para votar nas preferidas. As mais pedidas retornavam nas campeãs.

Já na Mundial tinha o "Show dos Bairros". "Música da Tijuca": Tim Maia, "Azul da Cor do Mar"(!).

Não era legal? Musical dos Colégios e Musical dos Bairros. Uma amostra da ligação carinhosa dos adolescentes com sua escola e com o bairro que morava.

Eram lançados LPs das emissoras com coletâneas dos principais sucessos do período. Joias disputadas por quem tinha toca-discos. Naquela época a moda era o chamado 3 em 1 (radio, toca-fitas e toca-discos). Tinha também os portáteis "Sonata", utilizados para ser levados para a casa de alguém para animar as festas regadas à gelo e Rum com Coca-Cola, porque era a bebida mais barata. Quem tinha o "Sonatão" e o LPs eram respeitadíssimos.

A ótima série de discos "Sua Paz Mundial", teve diversas edições. Serve de exemplo de como funcionava o mercado de discos nos anos 1970. Aliás foi também Mundial e Tamoio que cunharam o termo "Good Times" nos programas que recordavam músicas de anos anteriores, afinal "Saudade Não Tem Idade" (outro programa).

Nessa linha formaram-se ouvintes mais conscientes, que conheciam os diversos estilos musicais. Parte desse público tornou-se mais exigente e as emissoras acompanhavam a evolução: na MEC, Música Clássica; na Jornal do Brasil, "60 Minutos de Música Contemporânea". E aí vieram as FMs com destaque para a EldoPop que mirava no Hard-Rock, Jazz-Rock, Rock Progressivo e MPB de vanguarda. Em outro post falo desta.

No final dos anos 70 a coisa desandou e as emissoras tornaram-se "pasteurizadas": os Djs falavam da mesma forma, tocavam as mesmas músicas e os programas eram muito parecidos. Iniciou-se o chamado "jabá" das gravadoras: pagavam para a emissora tocar só o que era interessante economicamente para elas. Vem daí o hábito corrosivo de "fabricar sucessos".

Pouca coisa se salvou nos anos 80 e uma delas foi a Fluminense FM (a "Maldita") que transmitia de Niterói uma programação fora dos padrões, sem jabá e com excelentes programadores. Não durou muito tempo.

Os anos 1990 e 2000 foram uma lástima. A ponto de surgirem as emissoras piratas regionais para tentar colocar vida inteligente no ar. Eu participei disso, mais como ouvinte mesmo, eventualmente como programador, mas sem risco de derrubar aviões (como se temia na época em relações às frequências não oficiais), pois estávamos longe de aeroportos.

Foram 20 anos perdidos e aí voltamos ao ponto inicial: muitos não sabem o que é uma emissora de radio de qualidade e nem se ligam muito nisso.

No entanto, curiosamente, uma nova geração "rádio de pilha" começa a surgir. E, vejam só, através dos modernos smartphones pode-se ouvir rádios FM, emissoras online, os áudios em streaming e as músicas em arquivos mp3.

Ouvir nos pequenos auto-falantes do aparelho (ao invés dos fones de ouvido) é uma viagem no tempo: de volta ao radinho de pilha! Vocês mais "experientes", façam o teste para ver. Quer dizer, ouvir.

É a música nos seguindo onde estivermos.

No livro "O Triunfo da Música" (Cia. das Letras) do historiador inglês Tim Blanning, a importância da música e a sua elevação de status nos últimos séculos é devidamente analisada em cinco pontos chave: prestígio, propósito, espaços, tecnologia e libertação. Música é definitivamente cultura, além de lazer e de fazer bem para alma. Não toda música, é claro.

Resolvi fazer esse pequeno texto em homenagem a alguns amigos que sempre tem a excelente companhia da boa música e homenageando também, em especial, o amigo Paulo André, figura única na cidade que fez história com sua inesquecível loja de discos de vinil nos anos 70 e 80, a Caiana Discos.

Ele volta agora via Internet com a... Radio Caiana! Grande figura o meu amigo. Merece uma conferida em http://radiocaiana.com.br/ (no computador, notebook, tablet ou Smart TV) ou no "radinho de pilha" do século 21 em radiocaiana.radiostream321.com - em android e iOS, clique em Listen on Listen2myradio APP e façam o download do aplicativo) ou através do site mesmo.

Enfim, essa pequena cronologia musical, tendo como referência as emissoras de radio, busca resgatar aquilo que fez parte da vida de muita gente, que não tinha a Internet como componente de sua juventude, pois essa não existia mesmo! E mostra que a vida, às vezes de forma inesperada, dá círculos. Quem diria, por exemplo, que um moderno smartphone de mil dólares soasse como aqueles velhos radinhos de pilha dos pobres da época?

Reminiscências e questionamentos de um cinquentão ainda e para sempre ligado em velhas músicas românticas e novíssimas tecnologias.

P.S. Musical:
A citada Radio Mundial tinha um comercial na TV, em 1978, que ficou muito famoso na época, pois era pioneiro nesse estilo de propaganda. Era um vôo de asa delta ao som da romântica canção "I'd Rather Hurt Myself " do cantor Randy Brown. Depois deste comercial a música ficou conhecida como "Mêlo da Asa" ("Melô" era uma gíria que se referia à palavra melodia).


quinta-feira, 9 de junho de 2016

O inverno de um coração urbano

Nesta semana, ao que parece, o inverno começou a dar sinais de vida, embora ainda estejamos no outono. Aí fica a dúvida: se em 2016 teremos frio de verdade ou apenas uma leve recordação dos casacos esquecidos no armário. Com cheiro de ano passado.

Minhas lembranças de épocas em que as estações pareciam ser mais definidas são interessantes. É bom dizer que elas - as lembranças - deveriam ser muitas pelo singelo fato de que eu já ultrapassei o meio século de atividades ininterruptas neste "pálido ponto azul". Mas não são não. O que é preocupante. Estariam elas desaparecendo à medida que somo mais um na contagem progressiva (na verdade regressiva) da vida?

Enfim, mais uma conversa a ter com meu Geriatra que eu nem sei quem é pois continuo, teimosamente, me recusando a procurar. Talvez daqui a dez anos. Sei que não é a atitude mais correta em termos de saúde mas é provável que eu tenha a Síndrome da Juventude Eterna. Neste caso melhor procurar um Psiquiatra antes. De preferência um que não tenha o mesmo problema.

Voltando ao ponto central, se é que existe um, o inverno me faz lembrar a minha "divisão interna" que costumo chamar de "ou isso ou aquilo". Minhas reminiscências tendem a fazer com que me sinta, eventualmente, um ser urbano. Ou, pelo menos, de coração urbano. Lembro e penso em roupas mais elegantes, restaurantes, encontros ao redor de uma garrafa de vinho.

Da infância, a possibilidade de correr muito sem sentir aquele calor abrasador dos dias quentes. Brincar mais no subúrbio. Urbano, ainda que na periferia.

Se o verão é praia, as meias estações dirigem meus afetos para o mato, interior, serra. Então. É isso ou aquilo: ser urbano ou interiorano, ao ritmo das estações.

O ritmo do inverno, quando ele acontece, tende a ser mais lento que as demais estações. Deve ser impressão, mas me parece ser mais fácil observar e ouvir pessoas. As intenções, atenções, afetos. O caminhar. Os cachecóis, casacos, botas. O ir e vir na cidade. O céu do entardecer por entre casas e prédios. O que fazem e pensam os urbanos corações que ali habitam.

A estação parece ter até mesmo uma trilha sonora: Jazz. Não consigo combinar esse gênero musical com suor e cerveja. Mas harmoniza bem com noite, frio, chuva, pernas cruzadas na poltrona e vinho.

Não, não tenho uma estação preferida e, se tivesse que escolher, seria outono ou primavera, desde que não acontecessem em apenas uma semana. Mas o fato é que essa chegada do inverno ao mesmo tempo que me aproxima da cidade grande, me faz pensar o quanto ela também pode ser impessoal e distante. O coração urbano talvez esteja tentando mandar um recado: esse meu sentimento de proximidade com os outros no frio é também a necessidade de aproximação de mim mesmo. Do qual talvez ande meio distante.
Coisas urbanas.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Aconteceu em um verão

Não sei se narrei aqui - com os devidos detalhes emocionais - o reencontro de minha turma da antiga Escola Técnica, 37 anos depois. Seria um longo texto e acho que ainda devo isso a mim. E aos queridos amigos daqueles saudosos tempos.
Mas ainda não será desta vez.
Depois do reencontro não perdemos mais o contato e temos realizados até mesmo pequenas viagens juntos.
Em um desses bate-papos de lembranças, foi citada uma festa de despedida que fizemos na praia, na casa de um professor. Em um verão de fins dos anos 1970.
Éramos tão jovens (isso é título de livro, acho). Essa recordação me levou a outra, de um filme que se passa em 1942, em um verão. E eu sabia que havia escrito algo a respeito e provavelmente registrado no blog do amigo Luiz Felipe Muniz.
Estava certo. Foi em 2010 e eu consegui achar o pequeno artigo que reproduzo a seguir.
Para nostálgicos, admiradores de delicadezas e românticos em geral. O filme, não o meu sofrível texto.

Houve uma vez, um verão
Na década de 1970 assisti a um filme de que nunca mais esqueci. Na verdade não me lembro com detalhes de todos os acontecimentos da trama mas, adolescente que era, ficou na memória, em linhas gerais, uma espécie de “sinopse” da história.

Ocorre que nunca mais vi esse filme. Acredito que ele esteja disponível em DVD (se estiver em catálogo) ou mesmo que passe eventualmente nesses canais de filmes antigos. Ou em Streaming.

Pode ser que eu tenha, inconscientemente, optado por assistir aquela única vez para deixar registrado o encantamento de uma mente adolescente que ainda não tinha tido uma única namorada mas que, no fundo, ansiava por uma paixão. Óbvio.

Acho que se eu falar o nome do filme e descreve-lo um pouco, vocês vão entender melhor, certo?

Chama-se “Summer of '42”. A direção foi de Robert Mulligan, baseado em um roteiro autobiográfico de Herman Raucher. Ou seja, trata-se de uma história real. São as recordações de Herman, já um senhor maduro, contando um episódio da adolescência que marcou sua vida.

Foi uma paixão de verão (em um balneário americano) que ele teve por uma mulher mais velha chamada Dorothy (a bela Jennifer O'Neill), recém-casada e carente devido à ausência do marido, que estava servindo na II Guerra Mundial.

É talvez um dos mais singelos e emocionantes registros sobre o tema “a primeira vez”, onde a iniciação sexual é tratada de forma emocional. Apesar do tema 'forte' é um hino à inocência, a um momento único. Uma lição de amor e de vida, contada de forma poética e sensível. O que não é fácil, pois além da questão 'iniciação' trata-se de um relacionamento passageiro entre uma mulher casada, mais velha e um adolescente. Isso em 1942, contado no início dos anos 1970!
A capa original do LP com a trilha-sonora

Estou falando de minhas lembranças acerca do filme. Alguns de vocês podem procurar o mesmo, assistir e... achar horrível! Os tempos são outros...

É que, para muitos, poderá parecer uma história “datada”. Não deixa de ser verdade. É o relato de uma época. Os tempos mudam e, sem nostalgia, acho que muitos jovens poderiam assisti-lo para comparar com as facilidades atuais. Isso sem querer distinguir “como melhor ou pior”.

No Brasil, com tantas adaptações de títulos infelizes, neste eles acertaram e para mim ficou melhor que o original: “Houve Uma Vez Um Verão” (acho que depois relançaram com o título "No Verão de 42"). E acredito que nunca houve um verão como aquele no cinema. Pelo menos naquela época.

Mas tem outra coisa no filme que contribuiu para que ficasse em minha memória: a maravilhosa trilha-sonora de Michel Legrand, essa sim indispensável para admiradores de boa música orquestral. Retratou de maneira impar os momentos suaves do filme.

Talvez esteja na hora de, tantos anos depois, rever essa película (antigamente chamávamos assim) e verificar se resgato as mesmas sensações. Apesar de já ter ultrapassado os 50...

Ou talvez seja melhor deixá-lo lá. Guardado, trancado, nas minhas gavetas afetivas da memória.



Jennifer O'neill

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Morre o mestre musical Isao Tomita


Fiquei sabendo hoje da morte do músico japonês Isao Tomita.
Ele partiu para suas outras esferas cósmicas na quinta-feira, dia 5, mas só ontem foi divulgado em sua página no Facebook.
Tomita estava com 84 anos.
Não era muito conhecido pelo grande público do Ocidente, fora dos círculos musicais mais especializados.

Foi ele um dos pioneiros na utilização mais ampla dos diversos sintetizadores portáteis (portáteis ao nível daquele época; antes um sintetizador ocupava uma sala inteira) desenvolvidos nos anos 1960, sobretudo o Moog Synthesizer.

Em fins daquela década Tomita já criava trilhas sonoras "eletrônicas", termo que só seria popularizado muito tempo depois.
Sua especialidade, além das criações de trilhas para filmes, era fazer adaptações "cibernéticas" de peças da música clássica, embora seu primeiro disco, de 1972, tenha se chamado "Switched on Rock: Electric Samurai".

Costumo chamar suas adaptações de "Impressionismo Cósmico". Definitivamente não é de fácil acesso. Há que se entrar no mundo imaginado por ele para se conseguir extrair dali as sensações que pretendia passar. Isso fica mais claro em obras como "Snowflakes are Dancing" (adaptações de Debussy).
Uma das indicações que fazia era ouvir sua música com diversas caixas de som, o ouvinte no centro, para ser envolvido pelo sonoridade. Isso nos anos 70. Foi o pioneiro portanto no conceito de 'home-theaters' de última geração. Na falta dessa possibilidade, é imprescindível ouvir com fones de ouvido (como na música que inseri abaixo).

Influenciou gente do porte de Jean Michael Jarre, Vangelis, Kitaro e Yanni, embora esses tenham seus próprios estilos.
Por suas dezenas de adaptações e obras próprias é difícil indicar seus melhores discos mas eu gosto particularmente de "The Planets" (de Holst), "Pictures at an Exhibition" (de Mussorgsky, também adaptado pela banda de Rock Progressivo Emerson, Lake & Palmer), "The Bermuda Triangle" e "The Ravel Album", também lançado como "Bolero".

O detalhe é que foi muito premiado na área da música erudita (incluindo diversas indicações ao Grammy), mas muitos de seus círculos de fãs são formados por pessoas que se interessam por música eletrônica e novidades sonoras de forma geral.

Reconhecido no Japão como um importante nome de sua arte e cultura, Tomita deixa um legado importante, por fazer de maneira única a conexão da música de séculos atrás com a música do futuro. Neste caso buscando manter a essência emocional que normalmente se perde neste tipo de "transformação".

Descanse em paz Tomita. Boa viagem. Obrigado!


Morreu Isao Tomita, um dos pioneiros da música eletrônica
"Em 2015 foi-lhe atribuído o Prêmio Fundação Japão, criado para distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído para promover a amizade e compreensão entre o Japão e o resto do mundo. Isao Tomita agradeceu a honra. Mais tarde, comentou: “Nunca acreditei que a minha arte devia contribuir para promover o país. Mas a música, mesmo que seja uma coisa nova que recorra a sintetizadores, será sempre algo que pode ser apreciado por todos, independentemente da idade ou da proveniência. É esse o conceito por trás de todos os meus projetos”.

Assim era Isao Tomita que morreu na quinta-feira passada aos 84 anos mas só foi noticiado este domingo na sua página de Facebook. Foi um dos pioneiros da música eletrônica, um fascínio nascido quando do contato com o trabalho de Wendy Carlos, autora da trilha-sonora de Laranja Mecânica, e de Robert Moog, o inventor do famoso sintetizador.
Em 1971, quando já contava mais de uma década de trabalho enquanto compositor para a televisão, cinema e teatro japoneses, encomendou e começou a trabalhar com um dos primeiros Moogs chegados a território japonês. No ano seguinte, editou no seu país, "Electric Samurai - Switched on Rock", álbum em que gravou versões eletrônicas de canções pop e rock. Em 1974, chegou aquela que se tornaria a sua obra mais célebre, "Snowflakes are Dancing", em que os mesmos princípios de "Switched on Rock" eram aplicados à música de Claude Debussy. O álbum tornou-se um sucesso global, sendo nomeado para quatro categorias dos Grammy e subindo ao primeiro lugar da tabela da Billboard dedicada à música clássica – muitos anos depois, em 2014, Ben e Joshua Safdie resgataram-no para a trilha sonora do seu filme "Heavens Knows What".

Paralelamente ao trabalho que continuou a desenvolver para cinema e televisão, foi aumentando a sua discografia com álbuns no mesmo espírito de "Snowflakes are Dancing", editando "Firebird" e "Pictures From An Exhibition", inspirados nas obras respectivas de Stravinsky e Mussorgsky. A sua música tornar-se-ia referência marcante para, por exemplo, Ryuichi Sakamoto e os seus Yellow Magic Orchestra.
Nos anos 1980 desenvolveu e apresentou mundo fora os concertos ao ar livre Sound Cloud, em que colunas de som rodeavam o público para proporcionar uma experiência imersiva. Atualmente trabalhava em "Dr. Coppelius", balé a ser protagonizado por hologramas. Em Janeiro, dizia ao "The Japan Times" que a sua prioridade era manter-se saudável. “Mas gostaria de adiantar 'Dr. Coppelius' o máximo que me fosse possível, de forma a que, mesmo que algo me aconteça, outros possam terminá-lo”. O coração traiu-o antes do tempo. O legado continuará. E a obra derradeira certamente não ficará inacabada."
Fonte:  Público (Portugal)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Amenidades em um época difícil

Está difícil escrever neste momento.
Falo em escrever sobre amenidades.
Leves impressões sobre o nosso dia a dia, observações do cotidiano.
Descrições de viagens, resenhas de filmes, discos, livros.
Dicas sobre o bem-viver, análises superficiais de nossos aspectos morais, sociais...  caminhos que se abrem nas encruzilhadas do dia, do mês, do ano.
Sobre o passar do tempo, sobre a natureza, sobre a labuta diária.
Amizades, paixões, distâncias, saudades, reencontros, vivências, poesias, sonhos e planos.
Observações urbanas, suburbanas, periféricas, rurais.
Descrever sensações, sons, imagens, sabores, texturas, perfumes, beleza.
Maio, outono, sol, chuva, vento, mar, luz.
Do gosto de uma cerveja gelada ou de um café quente feito no coador de pano até complexas questões existenciais que podem ser simplificadas à sombra de uma árvore frutífera em flor.
Sim, está difícil escrever sobre amenidades, como faria Rubem Braga em suas crônicas, que observavam de maneira simples e brilhantes as pequenas coisas do momento.
Mas porque a dificuldade? Provavelmente bloqueio por conta dos temas e dos sentimentos que dividem o país: política, economia, congresso, constituição, justiça e um certo moralismo enviesado.
É quase impossível não estar em um dos lados e ficar imune a uma espécie de clima de ódio e patrulhamento nutrido contra o lado oposto.
E não só em redes sociais e manifestações. Até mesmo no seio familiar e em grupos de amigos.
Falar sobre amenidades neste momento é quase uma afronta. O que não me atingiria. Mas não consigo me distanciar suficientemente do clima. E não falo do outono / inverno.
Tudo bem. É a democracia. Acho que é. Quer dizer, não sei não. Me passa um filme na mente, um dejà-vu, sensação de já ter visto isso antes, com outras roupagens. E há vilões, "forças ocultas" ou não tão ocultas. Mas, se não dá para escrever sobre amenidades, não vou ser mais um a destilar ódio, acusações e suspeitas. Não neste texto, pelo menos.
O problema é que isso se arrasta desde 2014. E lá se foi 2015 e metade de 2016. Nem as Olimpíadas - maior evento esportivo do mundo acontecendo pela primeira vez no hemisfério sul - parecem conseguir quebrar a corrente do mal. E não há sinais que 2017 seja diferente. E em 2018 teremos eleições, logo... a espécie de "guerra não declarada" continuará por um bom tempo.
E a situação econômica  também. Esta reforçada por itens como conjuntura internacional e má atuação de ambos os lados. Ao final a fatura é cobrada de todos. Ou quase todos. E tem sempre aquela parcela que sofre mais.
Não sei quando terei ânimo para voltar a registrar as minhas impressões (não políticas e econômicas) neste espaço. Mas, se conseguir, não sei quem estaria disposto a ler. A não ser para conferir minha posição a respeito de tudo isso.
Mas, como não podemos nos deixar abater e a agradável luminosidade outonal segue lá fora, sigamos em frente.
Tentemos manter pelo menos um pouco da poesia que é o existir. Apesar de tudo.

Fotos: Marina Barbosa (on Facebook)