segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O meu Carnaval e The Walking Dead

Não é de hoje que dizem que carnaval é a "festa da carne". Com a picanha maturada custando mais de R$ 40 o quilo concluímos que trata-se de um evento chique, para poucos, considerando a crise econômica.

Uma foto postada mostra dois produtos lado a lado em uma drugstore: uma lata de leite em pó especial para crianças com menos de 1 ano (R$ 50) e um envelope de camisinhas (R$ 1,50). Há diversas versões e preços. A cruel comparação indica qual a obvia melhor opção econômica, mesmo não sendo a ideal em termos de prazer momentâneo.
Mas evita os chamados "filhos do carnaval", nascidos nove meses depois da folia de Momo. E de quebra garante uma proteção extra para a saúde, sobretudo no esquema "ninguém é de ninguém', no vale tudo do MMA de fevereiro.

Piadas e considerações infames à parte, a maioria brinca o carnaval sem a suposta necessária trilogia "Sexo, Drogas e Rock'nRol". Talvez "Beijos, Cervejas e Samba" soem mais light e adaptadas à nossa realidade festiva e tropicaliente.

Há críticas contundentes à suposta alienação do brasileiro nesses dias de fantasia mas, convenhamos que a galera merece um refresco, ou muitos chopps estupidamente gelados, depois do que já veio e do que virá. Pode ser Skol Beats vermelha, verde, amarela, azul ou preta também. Uma festa de cores.

Para quem gosta, tem ânimo e preparo físico para pular atrás dos blocos, trios e escolas de samba ao longo de quatro dias.
Há um certo motivo para a chamada "alienação" carnavalesca. Hoje, por exemplo, a Assembleia Legislativa aprovou à toque de caixa (literalmente) a privatização da Cedae à mando do incompetente governo estadual, atendendo ao desmando do espertíssimo governo federal. Sem entrar em discussões políticas, a ação foi vergonhosa.
Mas o tema é o período carnavalesco.

Eu já não tenho mais o necessário ânimo e disposição para essas maratonas sob o sol de 40º à sombra, entrando noite à dentro à bordo de altas consumações etílicas. Já foi o meu tempo. Há muito tempo.


Aliás à última sequência de "viradas" que me lembro de ter participado ativamente nem foi no carnaval. Foi no primeiro Rock in Rio, em 1985. Os shows começavam às 15 horas e terminavam por volta das 3 da madruga. Mal dava tempo de chegar em casa no subúrbio, descansar um pouquinho e partir de volta para a Barra.
Em retrospecto, não sei como sobrevivi, levando em conta os copos de 750 ml do chopp Malt 90 que chegavam em caminhões pipa. Bem, eu tinha vinte e poucos anos...

Minha maratona atual é de filmes, séries, livros e discos, preferencialmente com o ar condicionado ligado, à não ser que na rede (não a wi-fi) esteja soprando uma brisa fresca vinda do mar.

É possível que busque refúgio na serra, cercada de verde e riachos, ali por perto de Lumiar, como fiz ano passado. Mas uma coisa é certa: se não quiserem me encontrar procurem atrás de um bloco ou trio elétrico. O que não deixa de ser preocupante pois, segundo Caetano, "atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu...". Seria eu zumbi? Acho que assistir "The Walking Dead" no carnaval pode ser a minha opção.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sobre hoje de manhã

Ouvir rádio no carro já não é mais um hábito que cultivo. Eu e quantos mais?
Com o pendrive "espetado" direto na entrada USB, a busca por uma boa emissora musical ficou no passado.
E, além do pendrive, tem a entrada para cartão de memória e o bluetooth, que se conecta com as músicas do Smartphone.
Sem esquecer conexões auxiliares e os CDs, que ainda uso.
Quem precisa de rádio para ouvir música? Até porque está cada vez mai difícil achar boas programações nas emissoras FM das cidades.
No entanto, uma surpresa me estava reservada nessa manhã. E tem a ver com memória afetiva.
Acordei cedo, por volta 06:30 h. Eu consideraria isso tarde há alguns meses, quando era despertado cruelmente às 04:40 h, de segunda à sexta, para o trabalho. Escapei dessa rotina.
Tinha horário marcado com a Fisioterapeuta, às 8:00 h, para uma avaliação de um problema no ombro direito que a medicina carinhosamente batizou de "capsulite adesiva" ou algo parecido. Os movimentos ficam restritos e levantar o braço acima de 90 graus pode ser uma dificuldade. Me falaram que é doença de rico, ao qual respondi que ela tinha então errado a mira. Afinal a conta corrente não anda lá essas coisas...
Como pediram para eu chegar uns 20 minutos antes e, como me demorei no banho, percebi ao sair de casa que estava um pouco atrasado.
Pensei em um caminho alternativo, que cortava pela praia, o rio e chegava em um ponto que seria mais fácil estacionar, no centro, onde se localiza a clínica.
Sim porque estacionar em locais de movimento é um problema que deixou de ser privilégio das grandes cidades. Bem como estacionamentos que cobram caríssimo a hora. Isso quando tem. Vocês sabem...
Ao ligar o carro não entraram as músicas do pendrive mas uma estação FM local com uma música sofrível. Com a pressa, ao invés de apertar o botão "Mídia", toquei naquelas setinhas de procurar estação. Peguei o referido caminho só pensando no horário marcado.
O aparelho ficou em looping e nada de parar em uma estação. E eu sem música no carro.
Exatamente quando chego em frente ao mar o rádio pára em uma emissora. O som claro de um clarinete acompanhado de conjunto de câmera preenche todos os espaços. Não sou de ouvir música clássica (embora tenha alguns bons exemplares em CD e vinil na minha coleção), no entanto, a surpresa de ouvir aquilo naquela hora da manhã em uma emissora de radio me causou surpresa.
Olhei no painel digital e o número indicava 99.3. O que seria aquilo? Alguma transmissão experimental? 
Me lembrei imediatamente da MEC FM, uma emissora do governo federal que eu ouvia lá pelos fins dos anos 70. Mas ela não existia há muitos anos. Ou não? Além disso estava um som muito nítido para uma emissora que distanciava tantos quilômetros de onde estava.
O fato é que, curioso para saber que estação era, deixei o som rolando enquanto olhava o oceano à minha esquerda, pela janela lateral do meu automóvel (não "da janela lateral do meu quarto de dormir", como cantava o Lô Borges e o Milton em sua clássica "Paisagem da Janela" do Clube da Esquina).
A música soou perfeita para o momento, para o percurso quase deserto que eu havia optado e até esqueci que estava atrasado: parei para tirar umas fotos (de dentro do carro mesmo) com o celular. Do mar e do pequeno rio que atravessava, em direção ao centro da cidade.
Interessante como a surpresa daquela música me fez parar de pensar no meu atraso, na vaga para estacionar, no veredito da fisioterapeuta.
Prestei atenção na paisagem, no sol, no azul, no verde ao som da clarineta.
Quantos momentos estressantes podemos reverter para um momento de paz, apaziguando a mente sempre ocupada com mil coisas ao mesmo tempo? Focar no momento presente, atento a pequenos detalhes sem importância, parece ser uma saída. Mas não é tão fácil como alegam alguns especialistas em meditação.
A música acabou, a locutora entrou e informou: era a MEC FM sim! Acho que nunca saiu do ar. E aí me lembrei de outras emissoras daqueles tempos, da Mundial AM até a Radio Relógio Federal. Tempos em que o radinho de pilha era nossa companhia em todos os momentos.
Ao escrever essas sofríveis linhas tentando narrar episódio corriqueiro para possíveis curiosos, ouço a MEC FM no notebook. Se senti saudades do velho radinho, há de se reconhecer também a importância das novas tecnologias. Hoje o rádio pode estar no carro, mas também no Smarthphone ou no computador.
Voltando ao percurso matinal, cheguei e estacionei fácil o carro, na sombra. Era oito em ponto. Ao desligar o veículo a música parou. Mas eu já estava suficientemente em paz para encarar a fisioterapeuta que, além de ótima profissional, era bonita! O que, se não é um fato primordial, serve para terminar com algum impacto esta pequena crônica...


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Os Ipês Amarelos Sobreviventes

Seja na correria dos deslocamentos de carro ou transporte coletivo, seja no fato de ficarmos trancados o dia todo em um escritório, é fato que cada vez menos reparamos o universo ao nosso redor (parafraseando o título de uma bela canção da Marisa Monte).
Na manhã desta terça-feira de outubro uma chuva fina caía. Amena temperatura sinalizava que ainda estamos na primavera, apesar do horário de verão.
Precisava me deslocar até a Rodoviária para comprar uma passagem. Apesar da chuva, sabiamente optei por ir caminhando. Até porque é perto de minha casa. E me livro de ter de procurar vaga para estacionar, fato que tem incomodado todo mundo, tanto nas metrópoles como em cidades de médio porte.
Esta cidade plana não é exemplo de bom urbanismo: ao longo de décadas os gestores perderam a oportunidade de humanizar e harmonizar pessoas com seu entorno. Faltam calçadas dignas, ciclovias, árvores, gramados, transporte público. 
Sobram carros, ônibus barulhentos, calçadas alquebradas, buracos e tons de cinza. Neste caso não me refiro ao céu nublado de hoje.
A Rodoviária fica no centro da cidade, parcialmente cortado por um canal que é chamado de valão. O que não é em vão: curso d'água que é pura poluição. Prosa que rima mas que não é poética.
No entanto, fora dos carros e dos escritórios e no meio do caos do trânsito, da fumaça que escurece o ar, dos motores que ensurdecem os sons naturais, semi-milagres podem acontecer.
Atravessei a pista dupla ao lado do terminal rodoviário. Alguma coisa me chamou atenção.
Tirei do bolso o celular, escolhi o ângulo e fotografei.
Ipês Amarelos florescendo ao lado dos automóveis, do valão, da gritaria urbana.
No chão um tapete amarelo acima de uma grama verde que serpenteava em estreita faixa deixada ali como esmola, uma vez que a prioridade são pistas largas para os milhões de veículos.
A foto é a que mostro neste post. Verdade que tive de usar uma estratégia para criar um panorama lindo, natural, posicionando a câmera de forma a não mostrar a confusão urbana.
Mas é fato que os Ipês Amarelo me ajudaram a lembrar que estamos na Primavera e que, apesar de nós, eles continuam resistindo, mostrando que a verdadeira beleza urbana pode não estar naquela BMW ou naquele imenso prédio de vidros espelhados.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

John Coltrane: um amor supremo e a chegada da primavera

Quando vou fazer alguma tarefa ou ler um bom livro costumo colocar um fundo musical.

Na verdade acho que é o contrário: trabalho ou leio enquanto fico atento ao que talvez seja o principal - a música.
No caso das leituras consigo achar facilmente a trilha-sonora adequada.
Obviamente também quando estou escrevendo, de acordo com o tema.
Até quando dirijo, manter o foco na estrada não é problema quando o fundo musical é correto.

Hoje ouvi Miles Davis ("Kind of Blue") e John Coltrane ("A Love Supreme").

Não é uma música que - a meu ver - funciona bem durante o dia. Jazz é música noturna. A não ser que seja um dia chuvoso ou pelo menos nublado e frio. Para mim Jazz não combina com sol forte.

Uma estratégia para nossos dias tropicais é optar pelo estilo Smoth Jazz, que tem uma leveza rítmica e melódica mais solar, inclusive com fortes conexões com a música brasileira, Bossa-Nova entre elas. Mas esse gênero merece uma dissertação à parte.

Na hora em que ouvi os citados discos, estava lendo “Todos os Contos”, coletânea completa das histórias curtas de Clarice Lispector. Um vento quase frio soprava e as nuvens cobriam a luz do sol, com breves períodos de chuva fina. Sinais de um Inverno que se despede: começa depois de amanhã, quinta-feira, dia 22, a Primavera. Ela se anuncia através das flores que começam a se mostrar. Assim, as histórias únicas de Clarice e as músicas se conectavam com o momento presente.

Sobre um dos discos citados, vale a pena reforçar a importância de Coltrane, um gênio do mesmo calibre de Miles, só que com uma produção menor. Ele foi o primeiro (talvez o único naquele período, depois vieram outros via “Spiritual Jazz”) que buscou, dentro do Jazz, oferecer ao ouvinte uma experiência espiritual, fruto de suas próprias sensações acerca da presença de Deus em tudo.

À frente de seu tempo, uniu visões místicas do ocidente e do oriente.

Ouvir determinadas criações de John Coltrane - no momento certo - pode mesmo inspirar instantes de meditação, paz e plenitude. Mas tem de estar conectado, o que é difícil com tantas tarefas nos esperando hoje em dia. E não precisa necessariamente gostar do Jazz clássico, embora em um primeiro momento possa parecer uma música “difícil”. Há de se superar isso e entrar no universo do mito do Sax.

Sobre ele, o músico e estudioso alemão Peter Michael Hamel – em "O Autoconhecimento Através da Música", citando Joachim Berent de "A Música e a Meditação" - escreveu: "Coltrane tocava seu sax-soprano com a sonoridade oriental da shenai ou da sukra. Esta maneira de tocar somente se impôs mundialmente ao se introduzir um elemento ideológico, a inclinação de Coltrane para a religiosidade asiática. Ele conscientizou grande parte do ambiente jazzístico americano sobre a realidade da meditação, e sob sua influência muitos dos músicos que tocavam com ele começaram também a meditar."

É bom frisar que estamos falando da primeira metade dos anos 60.

Coltrane, na obra-prima "A Love Supreme", fez sua oração: "Louvado seja o nome do Senhor. Ondas de pensamento, ondas de calor, todas as vibrações levam a Deus... Deus respira integralmente através de nós tão ternamente que mal o sentimos... Ele é nosso todo... Eu te agradeço, Deus."

Ao som de Coltrane (música "Psalm") e de sua mensagem através de suas criações, desejo uma ótima Primavera a todos.

Wikipedia:
"A Love Supreme" - Esse disco, considerado sua magnum opus, é um ode à sua fé no amor e em Deus (não necessariamente o Deus cristão - na capa do disco "Meditations" ele diz "Eu acredito em todas as religiões").
Este interesse espiritual iria caracterizar muito a forma de tocar e compor de Coltrane a partir de então, como pode ser visto em álbuns como "Ascension", "Om" e "Meditations".
O quarto movimento de A Love Supreme , "Psalm", é, de fato, um arranjo baseado em um poema feito para Deus por Coltrane e impresso no álbum. Coltrane toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ao Cair da Noite


Essa frase que uso como título é uma referência a uma sensação sentida a cada fim do dia: o anoitecer me perturba.
Na verdade há um exagero literário aqui. Não me incomodo diariamente às 18 horas. Até porque é um momento sagrado na liturgia católica que eu aprendi a observar: Ave Maria! Até nem deveria, pois minha formação inicialmente batista e depois espírita kardecista me deixariam à vontade para não dar relevância a isso. O que pelo menos dá uma pista da minha volatilidade religiosa. Mas isso é outro assunto.
Seria o anoitecer uma metáfora dos fins dos tempos ou, pelo menos, a recordação da finitude de todas as coisas? Ao término da claridade me sentiria como que lembrado de que meu tempo urge? Seria esse o motivo dessa leve perturbação?
Nem tão dramático assim, afinal é na noite que os grandes mistérios e segredos se fazem acontecer.
Transgressões, quebra de regras, beleza da lua refletida no mar, brilho das estrelas, luzes indiretas que passam através das casas envidraçadas, gatos que passeiam por entre escadas, músicas ouvidas à meia luz, peles sedosas, de jazz... O que seria dos poetas sem a noite, que chega de mansinho e toma conta primeiro da alma e depois do corpo, como se fossem entidades separadas que finalmente se unem ao fim de cada dia? E lhes dá todos esses temas para que sua poesia venha à luz (ou à penumbra)?
Devaneios à parte, ao me sentar na pequena escrivaninha do meu quarto para escrever algo que eu não sabia o que era, olhei pela janela procurando algo indefinido, possivelmente uma inspiração que não viria. A luminosidade natural já estava em seus últimos momentos e uma leve melancolia talvez tenha meio que tentado se infiltrar por entre as dobras das emoções.
Talvez algum pequeno poema que eu tenha lido e não me lembre sugerisse essa conexão. Mas não me deixo abater pois a noite chega depois de um dos momentos mais lindo do dia, o por do sol.
E a noite precede uma das melhores sensações que temos: o recomeço da vida a cada novo amanhecer.
Entre o entardecer e o nascer do sol ela acontece e, se tentássemos recapitular a vida, é provável que as mais marcantes emoções tenham ocorrido sem a forte claridade do astro maior dos trópicos.
Talvez próximo das 18 horas, talvez por volta da meia-noite.

domingo, 4 de setembro de 2016

Quando Entra Setembro

Poderia começar essa pseudo-crônica com uma frase poética do tipo "um dourado luar sobre aquela noite tropical". Mas não estou conseguindo obter a sutileza que versos e sensações exigem.
O fato é que setembro chegou e eu tenho a impressão que existe algo fora de ordem. Não, nem tanto.
Não seria a primeira vez. Na verdade o normal é um certo desconforto com a proximidade do fim de mais um ciclo anual.
Por outro lado, qual a importância de estar "de acordo com a ordem estabelecida"?
A primavera vai chegar e com ela a sinalização de que o verão não está distante. Mas agora brilha o sol de agradável luz pálida e o panorama noturno é embalado por amena temperatura que nos convida a parar para olhar o céu.
A vida acontece entre os verões. No verão hiberna-se - próximo ao mar, se possível ou na serra - neste quente estado litorâneo.
E muita coisa aconteceu neste entre-janeiros.
Pela janela da alma vejo com lentes de vidro que eventualmente podem distorcer a realidade.
Mas minhas emoções se reportam a acontecimentos marcantes que não foram criados pelos óculos de aro azul. Acho.
Não confie em ninguém com mais de 30 anos, dizia a velha canção contracultural. Já o escritor Rui Castro alertava para não acreditar em quem pensa em escrever uma autobiografia com menos de 50. Questiono se vale a pena ler um texto que pretende fazer um balanço de 2016 em setembro. Ou é falta de assunto ou é ansiedade pelo que já aconteceu, independente do que ainda vai acontecer.
De qualquer forma, o poeta já falou que essa forma de medir e picotar o tempo é coisa que inventaram para que pudéssemos ter um recomeço a cada 365 dias.
Se falta de assunto não me é preocupante - me entregam temas a cada esquina e meus pensamentos borbulham a cada emoção pressentida - resta então a necessidade de tentar analisar os fatos ocorridos no período ou, pelo menos, registrá-los.
O que, se parece ser fácil, é na verdade um desafio, pois ninguém quer saber do óbvio já traçado exaustivamente pela mídia.
Resta-me a estratégia de focar em assuntos bem particulares: fica mais fácil descrever impressões do que é do meu interior. E aguça a curiosidade dos possíveis leitores. Saber sobre o que pensa cada um das suas próprias experiências e fatos relevantes.
Mas, ai de mim. Teria eu a mínima capacidade de explicitar conclusões racionais e emocionais, ser entendido plenamente e me submeter a possíveis julgamentos? Não tanto dos fatos, mas das minhas impressões sobre eles?
E seriam mais relevantes do que as possíveis impressões que cada um tem dos fatos de sua própria vida?
Há biografias de vidas - ou fases de vida - que merecem ser contadas. Há outras sem nenhum grau de interesse mas que, dependendo da forma como são vistas e contadas, adquirem o ar de algo grandioso.
Se confundem aqui forma e conteúdo.
E fico eu aqui enrolando e não fazendo nenhuma retrospectiva de 2016. Muito menos minhas impressões. E não conto nada de nada. E irrito os poucos que conseguiram chegar até aqui. Bem, pelo menos é setembro e, apesar do título do post, eu não vou citar "Sol de Primavera" - a mais repetida trilha sonora do mês.
Acho que vou esperar dezembro para ver o que mais vai acontecer. Aí eu conto. Vai valer a pena aguardar.
Mentira: é só para deixar meus 17 leitores curiosos. A vida de vocês é mais interessante, creiam. Nossa vida é sempre mais importante. Mas a curiosidade sobre a vida dos outros é sempre maior... É aquela história da grama do vizinho ser sempre mais verde.
Melhor mesmo é ficar com o setembro do Earth, Wind & Fire, pelo menos por enquanto,

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Lutadora

Estava sentada na sala comum da casa de repouso para idosos.
Assistia pela TV a uma luta de Judô das Olimpíadas do Rio.
Tentei precisar sua idade. Impossível. Já devia saber disso. Não consigo nunca acertar a idade de mulheres. Sempre erro para menos. Ainda bem. O contrário seria no mínimo indelicado.
Mas devia ter entre 75 e 80. Tento aqui, mas sei que devo cair na minha citada incapacidade para isso.
Estava vestida com uma simplicidade elegante. O tom claro de um tecido suave combinava com o a cor da pele, que obviamente continha as marcas de suas histórias.
Maquiada discretamente, nem o batom nem o pó compacto eram inadequados: pelo contrário, cumpriam sua missão de manter o belo espírito feminino vivo. O mesmo dos brincos, colares, anéis e pulseiras. E dos cabelos encanecidos.
Seu interesse no Judô despertou minha curiosidade. De forma vivaz me disse que na juventude havia lutado a arte marcial e que adorava ver combates.
Seu marido havia sido faixa-preta.
Saudades dele? Sim, muita. Foi casada por 40 anos, até que um infarte o levou.
Deve ter sido bom esse convívio de tanto tempo...
Sim. Ele era muito bom.
No entanto, a ex-lutadora me advertiu: "mas não pense que fui santa".
O Judô a apresentou a homens irresistíveis e ela não resistiu. Nem fez força para isso. "Ainda bem", me disse. Senão estaria arrependida agora.
Mas e o seu marido?
O que tem ele?
Acha que foi justa?
Não me entendeu. Disse que a vida tem de ser vivida de acordo com o momento. "Ele deve ter se encantado com algumas lutadoras também". E sorria quando contava isso.
Um dos combatentes da TV, o que estava de azul, aplicou um Ippon e venceu a luta. E eu fiquei desnorteado com a simpática senhora que fez uma rápida análise do golpe certeiro e perfeito. Acho que tomei um Ippon também.
Os filhos moravam no exterior, queriam levá-la, mas ela preferia ficar naquela casa de idosos, onde tinha companhia e estava no seu país.
Não se sentia triste algumas vezes?  Claro que não. Estava em um momento de calma, depois de tanto trabalho, realizações e aventuras. Apenas isso.
Se não tivesse sido tão intensa e aproveitado os seus momentos, talvez hoje estivesse deprimida. "Eu lia Clarice Lispector", me contou baixinho, como se fosse um segredo maior do que havia me contado à pouco.
"E eu escrevia poesias e desenhava para os meus amores", enquanto cuidava dos filhos. Não ficou claro se a referência era em relação exclusivamente aos filhos. Preferi não arriscar a pergunta.
Percebia-se que todos ali gostavam dela, do seu sorriso e comentários marotos. Era feliz consigo mesma. Apenas isso. Uma lição para 'um jovem' 20 anos mais moço.
A TV mostrava agora a bela arquitetura da Cidade Olímpica, em uma tomada aérea da Barra da Tijuca. Atletas caminhavam pela vila colorida e um publico de ampla faixa etária se encaminhava para os estádios.
A senhora já não prestava mais atenção na TV. Olhava para o seu lado esquerdo, em direção à porta, como que se procurando algo.
Posso ajudá-la?
Pode sim.
Como?
Procure saber sobre um senhor que chegou sozinho ontem. Ele usa anéis e pulseiras, igual a você. Desconfio que gosta de Judô também. Quem sabe até da Clarice! Queria muito conhecê-lo, ver o resto das olimpíadas e passear no jardim com ele...

sábado, 30 de julho de 2016

As Impressões de Clarice

Mudei de "condição profissional" e lentamente começo a perceber que posso levar a vida mais lentamente.
Ainda não sei as implicações disso, mais desconfio que não serão negativas não.
Ok, sei que tenho mil coisas para resolver, que estavam aguardando tempo livre, mas a diferença é que agora posso fazer de acordo com minha vontade. Ou quase. Mas ainda vou escrever sobre isso.
Livrar-se do corre-corre diário, das pressões cotidianas é um dos sonhos de consumo da maioria das pessoas. Ilusão achar que isso é possível, de forma completa. Mas buscar aliviar as tensões deve ser uma meta. Desde que não traga... ansiedade!
Com esse tempinho extra na agenda, entre outras coisas, dá para se dedicar mais a boas leituras.
Pesquisando uns livros da Clarice Lispector para comprar descobri que ela morreu um dia antes de completar 57 anos (seu aniversário é 10 de dezembro). Este ano eu cheguei nesse número e percebi como a querida escritora se foi tão cedo. Ainda bem que ela teve tempo de nos presentear com suas impressões sobre a vida, que ficarão eternizadas em nossos corações e mentes.
Dizem que a arte nos salva. A arte de observar e narrar de Clarice foi uma tábua em que ela se agarrou em momentos difíceis de sua vida e nos servem também de reflexão sobre os nossos momentos e nosso próprio existir.
Ter tempo de pensar nisso é um trunfo, mas há de se ter cuidado, pois estamos desacostumados com essa prática, convenhamos.
Nesses momentos contar com gente como Clarice Lispector para ajudar é inestimável.
Essa ucraniana de alma brasileira é uma das principais escritoras de origem judaica do século XX. Não teve vida tranquila, sobretudo depois que se separou do marido diplomata pela necessidade de parar de rodar o mundo e se dedicar aos filhos que precisavam de cuidados especiais.
Se instalou no Leme, que passou a ser o seu lar até o fim da vida (este ano foi inaugurada uma estátua na praia, em frente ao edifício que morava) - cujo término se deveu a um câncer no ovário - em 1977. Lembrando que ela já havia estado bem perto da morte em 1966 quando, ao dormir com o cigarro acesso, provocou um incêndio que a deixou em coma por três dias e quase teve a mão direita amputada.
O seu dom de captar e passar emoções, através de suas observações do cotidiano, criando histórias de pessoas comuns, foi reforçado pela experiência de suas próprias crises existenciais.
Assim, aos 57 anos anos - que a Clarice não chegou a completar - me vejo selecionando algumas de suas frases, retiradas de seus escritos. 
Divido algumas, que acabei de ler agora, com os amigos leitores deste cantinho. 
Nada demais (o que faço, não as impressões de Clarice). Quem sabe algumas dessas observações nos servirão de aconchego em dias reflexivos de inverno, enquanto aguardamos a primavera...
E, desta forma, lá se foi o mês de julho de 2016. Diferente de julho de 1977 (o último dela) ou de tantos outros. Sempre tem alguma coisa especial que acontece. É só observar os pequenos milagres do cotidiano. Como ela fazia. Aguardemos agosto. Não há de ser de desgosto.

As impressões de Clarice:
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
"Eu sou uma eterna apaixonada por palavras, música e pessoas inteiras. Não me importa seu sobrenome, onde você nasceu, quanto carrega no bolso. Pessoas vazias são chatas e me dão sono."
"Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração."
"Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda..."
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca."
"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."

sábado, 16 de julho de 2016

As últimas viagens dos meus ídolos do Rock

Acho que os amigos, sabendo da minha conexão integral com todo tipo de música (bem, nem todos os tipos), vivem me mandando links de assuntos ligados ao tema.
Agora me chega um que diz que "ficar arrepiado ouvindo música significa ter um cérebro especial". Ôpa! Isso pode ser bom ou ruim. O texto é amplo e mostra pesquisas envolvendo eletroencefalogramas em estudantes que ficam arrepiados com algumas músicas e com outros que nunca ficam. Segundo a mesma, "foi possível notar a excitação (sexual e emocional; nota minha: oba!) que os voluntários sentiam ao ouvir os melhores trechos de cada música. Os batimentos cardíacos aceleraram em todos os participantes, porém, aqueles que se arrepiaram tiveram emoções mais intensas".
Seria a comprovação de que uma boa trilha sonora nos acompanhando pode trazer, além de boas recordações, bons momentos no presente. Sempre.
E conclui a pesquisa dizendo que a reação química que o ser humano tem ao ouvir uma música emocionante é parecida com o que sentimos em outras tarefas essenciais, como comer ou fazer sexo. Por isso, o arrepio musical é chamado pelos neurocientistas de "orgasmo na pele". Huumm... Então tem isso também...
Mas foi acidental essa introdução, uma vez que eu ia falar mesmo de música mas não essa abordagem. Bem, de alguma forma sempre tem alguma conexão. Verifiquemos.
Meu assunto é que percebi que meus jovens ídolos do Rock lá dos anos 1970 andam dizendo que estão entrando agora em sua última tour mundial. Quer dizer, nem sempre falam isso, mas nota-se. Assim como eu, aqueles jovens não são mais tão jovens. Tá chegando a hora de se aposentar. Pelo menos da vida on the road.
É bom dizer que não eram só ídolos musicais. Aos 15, 16 anos eu admirava seus cabelos, suas pulseiras, sua postura e seu sucesso com as meninas.
Mas agora o tempo cobra sua fatura.
Por exemplo, o grupo inglês Whitesnake, liderado pelo outrora bonitão David Coverdale (ex-Deep Purple) se apresenta dia 02 de outubro no Metropolitan no Rio. Nome do show "Greatest Hits Tour". Não soa como um resumo final da carreira? O grande Coverdale completa 65 anos em setembro.
Outra querida banda, a alemã Scorpions, se apresenta no Rio no dia 10 de setembro (Pôxa! Mesma data do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras!). Nome da tour: "50th Anniversary World Tour". O que acham disso? O vocalista Klaus Meine está com 68 anos.
Vi essas duas bandas no primeiro Rock in Rio. Em 1985. Há mais de 30 anos!
Mas tem muito mais: em dezembro vem o Black Sabath em sua última tour mundial (assumida). O incrível sobrevivente Ozzy Osbourne também já completou 68 anos. Esse também vi no Rock in Rio 1.
Enfim, diversos dos meus ídolos daqueles bons tempos e que nunca deixei de acompanhar estão sinalizando o fim das apresentações neste e nos próximos anos.
Alguns chegam a dizer que encerraram as atividades mesmo no estúdio. O Pink Floyd, por exemplo, embora David Gilmour continue fazendo suas corridas diárias nos arredores de Londres.
O tempo chegou para eles, o que nesse caso (e em todos os casos) não é mau negócio, pois não sucumbiram aos anos de drogas e álcool, embora possam estar pagando o preço agora. De qualquer forma, a outra opção não era a melhor.
Na minha juventude ia a muitos shows, depois parei por diversos motivos. Acho que tá na hora de aproveitar essas últimas oportunidades. Deles e minha.
Sem dramas.
Mas o fato é que, se o Paul McCartney (que eu nunca vi), por exemplo, vier ao Brasil em 2017 como já foi anunciado, é bom que eu faça um esforço para finalmente ver um dos Beatles ao vivo. Vivo. Desconfio que ele não vai vir outra vez não. 
Por um tempo achei que esses feras fossem congelar no tempo. Ficar eternamente jovens, bonitos, sem perder o pique insano, sem perder a técnica musical, nem terem as vozes modificadas pelos anos.
Provavelmente o que eu queria era acreditar que eu - que os acompanhava tão de perto - também não iria sofrer nenhum efeito dos anos. Melhor dizendo, das décadas.
Ok, eu ainda estou bem, 10 ou 15 anos mais jovem que muitos e eles não estão tão mal, mas o fato é que a realidade bateu no peito, como um impacto de um veloz solo de guitarra. 
Com a última tour desses caras eles estão avisando: "não somos eternos, cara"!
Ok amigos, agora eu sei. 
Valeu por mais essa lição de vida, através de suas músicas. Já aprendi que o tempo passa (e rápido) pra mim também.
Mas com certeza sempre me arrepiarei ao ouvir determinadas músicas. Assim, garanto que, mesmo se chegar aos 100 anos, nunca perderei o citado e inusitado "orgasmo de pele". Pelo menos esse. Espero que vocês também!



sábado, 9 de julho de 2016

No balanço do tempo e das experiências: do velho livro à velocidade do amor

Li alguns livros de auto-ajuda lá pelos idos dos anos 1990. Não leio mais.
Me lembrei disso porque soube que que uma das primeiras obras a focar neste tema está completando 70 anos em 2016. E já passou dos 30 milhões de exemplares vendidos!
Trata-se de "Como Fazer Amigos & Influenciar Pessoas" do americano Dale Carnegie.
Eu não li, mas é de se perguntar como um livro escrito em 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, pode continuar despertando interesse.
A primeira conclusão que podemos tirar é de que as pessoas continuam com os mesmos problemas de relacionamento e auto-conhecimento.
Mas, mesmo sem ler o livro - e apesar de seu contínuo sucesso - duvido que ele permaneça atual.
É claro que alguns mandamentos são perenes e devem estar ali descritos, tipo "sorria sempre", "seja gentil", etc. E aí podemos afirmar que mesmo coisas óbvias precisam ser repetidas para que nos lembremos do básico para uma vida melhor.
No entanto, convenhamos, nem sempre é possível usar de gentileza em todas as situações e, se você sair sorrindo pra todo desconhecido que passar na sua frente, arrisca-se a ser taxado de maluco ou, no caso das mulheres, correr o risco de um louco ficar esperando na esquina mais próxima.
Ainda sobre a obra, o título deve se referir ao fato de que, na época e nos EUA, "fazer amigos" era tarefa árdua. Nem sonhavam com Redes Sociais.
Além disso, o termo "influenciar pessoas" soa no mínimo politicamente incorreto, embora na política é o que continuam tentando fazer o tempo todo.
Dando um salto de 70 anos no tempo caímos em uma época veloz, de muita informação mas pouca percepção. Não há espaço para reflexão mais ampla nesta era de obrigações, deslocamentos, muito tempo dedicado ao trabalho, etc.
Como questionar a vida ou as nossas atitudes e reações com tão pouco livre para isso? E quem quer saber das opções que a vida nos oferece? Apenas vivemos.
Raul Seixas ironicamente disse em uma de suas músicas que duas coisas o preocupavam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Desconfio que atualmente só nos preocupamos com a prestação.
Salva-nos (também ironicamente) as Redes Sociais, onde emitimos opiniões e nos "encontramos" com amigos. Bem, nem todos são amigos. Ninguém nessa altura do campeonato tem condições de ter "um milhão de amigos" como diria o Roberto Carlos.
Pois vejam só, no Facebook e no WhatSapp uma das coisas legais que vejo são citações de escritores e poetas que podem ser considerados recados de auto-ajuda ou, no mínimo, dicas para reflexão.
No entanto me lembrei que eu lia aqueles livros naqueles tempos e o maior problema era fixar o que tinha lido e aplicar no dia a dia. Mas eram livros inteiros.
O paralelo com o momento atual é que são tantas informações que lemos aquela breve citação, curtimos e passamos para o próximo post.
Não ficou nada registrado em nossa mente da Clarice Lispector, do Mario Quintana, da Adélia Prado, do Drummond, da Martha Medeiros ou até (ok, ok) do Dale Carnegie.
E olha que são recados curtos se comparados com livros. Fácil de ler, complicado para refletir e questionar nossas próprias atitudes. Permanecemos então com um padrão que perpetua-se ao longo da vida: as nossas naturais mudanças são na verdade mudanças "cosmésticas", assim como nosso corpo muda com o tempo, independente de nossa vontade.
O que gera outro questionamento: mudar o que e pra que? Melhor não pensar nisso e seguir a vida certo? Não sei não. O fim da estrada está logo ali depois daquela curva e otimizar a curta existência deveria ser meta de todos.
Tentar aproveitar mais a vida, os momentos e as novas boas experiências que se apresentam.
Mas, volto a dizer, quem tem tempo para isso?
Não sou lá muito adepto do Paulo Coelho mas tem um livro dele que tem um título (e um tema) muito interessante. Chama-se "Onze Minutos". Sabem do que trata esse título? Segundo pesquisas mundiais é o tempo médio que se gasta para ter uma relação sexual. Mais corretamente "fazer amor". Em alguns países isso não passa de seis minutos! Tempo de um intervalo comercial. Preliminares? O que é isso?
Não estou dizendo que este é o mais importante tema do mundo mas, por outro lado, não deveria ser tão pouco importante. Uso o assunto apenas como ilustração (sem fotos explícitas, fiquem tranquilos) de como estamos caminhando para o automático, para não experimentação, para a falta de preocupação com o que é o existir e suas sensações e emoções. Com o outro. Sabores, perfumes, sons, pensamentos, abraços, diferenças.
Corremos e lutamos para chegar. Chegamos, E agora? Onde estão mesmo os outros que foram em outras direções?
Mas, não sei não. Essas minhas impressões despertadas pelo livro que completa 70 anos e que não li e nem vou ler parecem soar um tanto quanto fora de sincronia com o tempo presente. Como se fosse uma frase da querida Clarice Lispector.
Enfim, sigamos em frente. Se refletindo, experimentando ou simplesmente "seguindo em frente", é uma abordagem de cada um.
Todo o assunto que tento humildemente abordar aqui nessas impressões, me faz recordar uma ou mais músicas. A citação do livro do Paulo Coelho me lembrou do título de uma música da adorável pianista Susanne Ciani; "The Velocity of Love". Desconfio que ela quis ser irônica com esse termo, pois a linda canção é bem lenta... Como deve ser a tranquilidade do amor. Aliás não deixem de assistir ao vídeo dessa linda música, que insiro abaixo. Apesar do touro assustador da introdução, o filme é muito bonito.



Suzanne Ciani